Semeando Esperança


03/10/2014 – Sobre estádios vazios e Missões
03/10/2014, 5:15 pm
Filed under: Semanal

Nos últimos anos, acompanhamos através das notícias os levantes populares em diversos países árabes na janela 10-40, movimento chamado Primavera Árabe. Um destes países, a Tunísia, sofre as consequências deste levante até hoje, mesmo que os ânimos tenham se arrefecido com o passar do tempo e o surgimento de outras questões. Uma das consequências é que qualquer tipo de aglomeração de pessoas é proibido para evitar qualquer tipo de levante popular. Por este motivo, uma das principais paixões do povo tunisiano, o futebol, não pode mais ser acompanhado nos estádios – os times jogam em estádios vazios, sem o apoio da torcida.

Uma história curiosa, que vi no site Trivela, é a do clube tunisiano Hammam-Lif, um dos mais tradicionais do país. Ameaçado pelo rebaixamento e com um jogo decisivo pela frente, uma iniciativa incrível tomou forma. Espalharam quarenta caixas de som ao redor do estádio e incentivaram cada torcedor a baixar um aplicativo gratuito chamado ‘Mobilizing the 12th man” (em tradução livre, Mobilizando o 12º homem) e através de cliques, enviar ao estádio seus gritos, aplausos, sons de corneta e tambores. O time conseguiu vencer por 1×0 e escapar do rebaixamento – no estádio, que tem a capacidade de 18 mil pessoas, ecoava o som de mais de 93 mil torcedores que baixaram o aplicativo e enviaram sua torcida como puderam.

Para prosseguir com a reflexão, recomendo ver o vídeo a seguir sobre este caso – é de arrepiar!:

Ao assistir o vídeo, além de ficar impressionado com a criatividade e a paixão dos torcedores, o pensamento mais contundente que eu tive foi em relação a Missões, logo de cara me apegando a três pontos:

i) Aqueles que não podem ir, conseguem apoiar à distância aqueles que tanto precisam – os torcedores sendo os que não podem ir e apoiando de longe com seus smartphones.

ii) A mensagem era enviada para aqueles que precisavam ouvir – os gritos e torcida eram enviados através da distância e chegaram aos jogadores.

iii) Mesmo com a ação à distância, é necessário também a ação local – de nada adiantaria enviar a torcida se ninguém tivesse colocado as caixas de som no estádio.

Mas, ao continuar pensando nesta relação, aos poucos eu comecei a identificar algumas diferenças entre a torcida deste caso e alguns casos relacionado a missões que eu vi durante a minha vida – claro que estas diferenças não se aplicam a TODOS os cristãos, mas em um sentido majoritário. Nestas diferenças, separei também três pontos: Identificação, Paixão e Acompanhamento.

1) Identificação

Identificação é quando uma pessoa consegue se enxergar na situação exposta. No caso dos torcedores, o fato de torcerem pelo mesmo time faz com que cada um se enxergue no outro. É aquela coisa de quando você, brasileiro, quando está fora do país, vê uma pessoa com a camiseta da seleção brasileira ou ouve português. Você não sabe nada sobre aquela pessoa, mas você consegue se identificar – há algo que te aproxima daquela pessoa. Um dos principais obstáculos que eu vejo para esta identificação é de que, em muitos casos, Missão é exposto algo distante. Quando vemos as apresentações daqueles missionários em outros continentes, o cenário é chocante muitas vezes e pode até nos comover momentaneamente, mas é tão fora da nossa realidade que é difícil criar identificação. Como Missões não é algo que ocorre só longe, são mostradas também as missões locais, que ocorrem na nossa vizinhança ou na nossa cidade, mas mesmo nestes casos há obstáculos para gerar identificação.

Usando o caso do vídeo, é como se olhássemos para aquelas pessoas e para os missionários e não nos vemos ‘torcendo pelo mesmo time’.  De um lado há o missionário que vive para auxiliar e levar a Palavra para os que não conhecem a Cristo e os que recebem as boas novas – ambos usando ‘a mesma camisa’. E do lado de cá, há os ‘cristãos de banco’, que muitas vezes buscam apenas um evangelho de autossatisfação, com foco em bênçãos para si e “nada de tristeza, só alegria”, ignorando uma das ordens mais claras de Jesus que é a de ir aos que não conhecem e pregar. Não nos identificamos muitas vezes porque não há em nós a mesma essência de Cristo que há nos irmãos que vão em direção dos que precisam do amor de Cristo – ou pior, não conseguimos olhar para os que não conhecem a Cristo e ver neles um pouco do que seríamos nós, se não tivéssemos conhecido a Jesus. O objetivo em comum dos torcedores era ver o time vencer – o objetivo em comum dos cristãos é que Cristo seja conhecido por todos. Ao menos deveria ser.

A identificação leva ao despertar do interesse e, quando traduzido no cenário de Missões, isso gera proximidade.

2) Paixão

Diretamente relacionado à identificação, há também a questão da paixão. No caso do vídeo, é notória a paixão que estes torcedores possuem pelo seu time – vestem a camisa, torcem e chamam todos torcer juntos, mesmo que a distância. A paixão faz com que seja investido o tempo e a vida naquilo que eles realmente acreditam ser o objetivo em comum, proveniente da identificação acima. Este é outro ponto que eu percebi dentro de nossas igrejas é a falta de paixão da maioria quando o tópico é Missões.  Quando a pessoa se envolve, muitas vezes é se comprometendo em oração na hora do culto (e muitas vezes esquecendo depois) ou talvez dando uma oferta naquele momento emotivo – em alguns, apenas como uma forma de saciar a consciência e ter uma sensação de “estou fazendo o que posso”. Mas, em muitos casos, basta tocar um outro hino ou sair do templo, e a questão de missões já se tornou outra vez algo distante.

Esta falta de paixão pelas Missões e pelas vidas que nela estão envolvidas – sejam os missionários ou os povos alcançados – gera também uma falta de compaixão. A compaixão torna pessoal algo que é de outro. O envolvimento não existe mais na perspectiva de ajudador e ajudado, mas sim de convivência e sofrimento compartilhado. Davi falou lá em I Crônicas 21 que “ele não daria a Deus algo que não tivesse lhe custado nada”. Muitos acham que isso apenas se refere à questão financeira, mas acho que é um princípio mais profundo nisso quando aplicado à Missões. O nosso envolvimento tem que ser pessoal, cada ação feita tem que ser motivada na alma e cada alma perdida deve doer em nós como se tivesse “nos custado algo”.

A paixão leva à compaixão e, quando traduzido no cenário de Missões, isso gera engajamento pessoal.

3) Acompanhamento

Um ponto interessante do vídeo dos torcedores é que eles não apenas fizeram o que foi pedido – baixar o aplicativo e torcer – mas também ligaram suas televisões e acompanharam a partida. Este é outro ponto que vejo como diferente entre o cenário dos torcedores e o de alguns irmãos nas igrejas brasileiras. Mesmo que haja uma investimento inicial baseado em uma instrução dada – seja orar por um propósito ou dar uma oferta específica por alguma necessidade – não há um acompanhamento posterior, um interesse em saber o que ocorreu decorrente daquele momento.

Neste ponto, dois versículos me vem à mente: Lucas 17:10 (que diz que “se fizermos apenas o que fomos mandados, somos servos inúteis.”) e Mateus 5:41 (“se alguém te obrigar a andar uma milha, vá com ele duas.”). A essência do evangelho trazido por Cristo é justamente não ficar preso apenas àquilo que foi ordenado – não seguir apenas a lei e parar por aí. É preciso ir além, deixar que o caráter de Cristo formado em nós, nos direcione a investir muito mais do que foi solicitado – se foi oração, mande também uma carta. Se foi uma oferta, não se esqueça de apresentar em oração. Se for uma milha, vá duas.

O acompanhamento gera conhecimento e, quando traduzido no cenário de Missões, isso gera envolvimento maior que o solicitado.

A minha oração é que Deus, começando por mim, tenha a liberdade de despertar em nossos corações o anseio de não apenas fazer, mas o de viver missões. Que nossos corações não sejam endurecidos frente aos irmãos que tem ido pregar ou aos que ainda não conhecem o evangelho.


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