Semeando Esperança


18/08/2014 – Jacó e o Deus de seu pai
18/08/2014, 11:00 am
Filed under: Semanal

Para que Deus seja conhecido pela geração seguinte, a instrução básica é realizar o que foi descrito em Salmo 145:4, que uma geração deve “louvar as obras de Deus e anunciar as Suas proezas para a outra geração”.  Mesmo em uma nação como Israel, que foi escolhida por Deus, quando não ocorre isto, surge uma geração que não conhece nem reconhece a Deus, como visto em Juízes 2:10. Abordei um pouco esta questão na reflexão “Clama a Mim”. O segundo passo é reconhecer a diferença entre “conhecer o caminho e andar pelo caminho”, como dito por Morpheus no filme Matrix – discutimos este ponto na reflexão “Conhecer x Caminhar”. Há um trecho de um hino antigo que exemplifica isso: “Antes te conhecia de ouvir falar, mas agora de contigo andar.”

-> Para acompanhar a leitura: Bíblia Online – Gênesis 28

Isto nos traz até a reflexão de hoje, centrada na vida de Jacó, filho de Isaque, neto de Abraão. Jacó era um exemplo claro do resultado de “uma geração louvando as obras de Deus para outra geração” – ouvia as histórias de seu pai e do seu avô, de como Deus falou com eles, agiu na vida deles e fez promessas a eles. Jacó também conheceu Deus na caminhada de sua vida, como veremos durante a reflexão. Mas em boa parte da sua história, Jacó reconhecia Deus como o Deus de seu pai – mesmo depois de ter tido experiências, visões e conversado com Deus. As pessoas ao redor de Jacó também conheciam o “Deus do pai de Jacó”. Mas em um ponto de sua vida, ele reconheceu que o Deus do seu pai era também o seu Deus.

TRÊS ESTÁGIOS DA VIDA COM DEUS

1 – Conhecer a Deus de ouvir falar

2 – Conhecer de caminhar com Deus

3 – Conhecer / Reconhecer a Deus por quem Ele é

Esta reflexão é justamente sobre esta transição entre conhecer e reconhecer a Deus. O nome Jacó significa enganador / suplantador, do hebraico Ya’aqov, literalmente “puxador de calcanhar” – talvez para demonstrar o seu nome, a vida de Jacó foi repleta de mentiras e enganações. Enganou seu irmão gêmeo Esaú duas vezes, uma para roubar seu direito de primogenitura (comprado por um prato de sopa de lentilhas em Gênesis 25) e a outra vez, com a ajuda de sua mãe, para roubar a benção do primogênito dada por seu pai Isaque (Gênesis 27). Foi enganado pelo seu sogro quando trabalhou por sua esposa e depois enganou o sogro para aumentar o seu rebanho. Pode-se dizer que o nome de Jacó representava a sua forma de viver, representava não apenas como era chamado, mas literalmente como era visto pelos outros homens.

O “conhecer de ouvir falar”, primeiro estágio da vida com Deus, caracterizou a vida de Jacó até o dia que ele teve que fugir de casa para não ser morto por seu irmão Esaú, quando roubou a benção de primogênito. Pode-se afirmar que Jacó passou para o ‘segundo estágio’ da vida com Deus, o “conhecer ao caminhar”, quando durante a fuga, parou para dormir ao relento e teve uma visão de uma escada que ia aos céus e anjos subiam e desciam (Gênesis 28:11-12). Neste momento, Deus renova a aliança e a promessa que havia feito com Abraão e Isaque (Gênesis 28:13-15). Após acordar, Jacó ergue um altar (Gênesis 28:18) e faz um voto, estipulando o que deveria ser feito por Deus para que ele O reconhecesse como seu Deus, não apenas o Deus de seu pai e dos seus antepassados. Alguns estudiosos afirmam que Jacó tinha quase 80 anos quando isto ocorreu.

*VOTO*: Gênesis 28:20-21 – Jacó diz: “Se Deus for comigo, e me guardar nesta viagem que faço, e me der pão para comer, e vestes para vestir; E eu em paz tornar à casa de meu pai, o Senhor me será por Deus.”

Nos 20 anos seguintes, muito aconteceu na vida de Jacó. Obedecendo seu pai, ele foi buscar seus parentes na região de Pada-Arã e acabou casando (duas vezes), teve 12 filhos e enriqueceu. Durante este período, em diversas ocasiões Jacó mencionou o Deus de seu pai e também reconheceu o que Deus fazia e tinha poder para fazer. Vide algumas referências abaixo em Gênesis em que vemos como Jacó, em sua caminhada, conheceu a Deus – não apenas falou de Deus e ouviu falar dele de outras pessoas, mas ouviu a Deus diretamente em sonhos e visões.

RECONHECENDO O PODER DE DEUS

“DEUS DO MEU PAI”

Genesis 27:20 – Jacó diz: “O senhor teu Deus a mandou ao meu encontrou”

Gênesis 31:5 – Jacó diz: “Vejo que o rosto de vosso pai não é para comigo como anteriormente; porém o Deus de meu pai tem estado comigo.”

Gênesis 28:13 – Deus diz para Jacó: “Eu sou o senhor Deus de Abraão e Isaque.”

Gênesis 31:42 – Jacó diz: “Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão e o temor de Isaque não fora comigo, por certo me despedirias agora vazio. Deus atendeu à minha aflição, e ao trabalho das minhas mãos, e repreendeu-te ontem à noite.”

Gênesis 30:30 – Jacó diz: “Porque o pouco que tinhas antes de mim tem aumentado em grande número; e o SENHOR te tem abençoado por meu trabalho.”

Gênesis 31:53 – Labão diz: “O Deus de Abraão e o Deus de Naor, o Deus de seu pai, julgue entre nós. E jurou Jacó pelo temor de seu pai Isaque.”

Gênesis 31:3 – Deus diz para Jacó: “Torna-te à terra dos teus pais, e à tua parentela, e eu serei contigo.”

Gênesis 32:9-11 – Jacó diz: “Deus de meu pai Abraão, e Deus de meu pai Isaque, o Senhor, que me disseste: Torna-te à tua terra, e a tua parentela, e far-te-ei bem (…) Livra-me, peço-te, da mão de meu irmão, da mão de Esaú; porque eu o temo.”

Gênesis 31:29 – Labão diz para Jacó: “Poder havia em minha mão para vos fazer mal, mas o Deus de vosso pai me falou ontem à noite, dizendo: Guarda-te, que não fales com Jacó nem bem nem mal.”

 

Jacó já tinha quase 100 anos quando optou sair da terra de seu sogro e voltar para Canaã. A saída de Jacó também teve mais uma vez ‘enganação’, fugindo escondido e, inclusive, roubando (por intermédio de Raquel) o seu sogro. No meio do caminho, ouviu que seu irmão Esaú vinha em sua direção com um exército de 400 homens. Naturalmente, Jacó tentou adotar mais uma vez estratégias para ‘enganar’ seu irmão: separar em dois grupos para que “se um for ferido o outro sobreviva” (Gênesis 32:8) e depois enviar presentes para “aplacar a ira de Esaú” (Gênesis 32:13-20) – praticamente tentando comprá-lo novamente, como havia feito com o guisado de lentilhas. Tomado pela angústia e pelo medo do que seu irmão faria, ele fez com que todos passassem pelo vale de Jaboque e ficou para trás, sozinho (Gênesis 32:23). Naquela noite:

– Jacó luta com um anjo (Gênesis 32:24);

– Jacó tem o músculo da coxa deslocado e fica manco (Gênesis 32:25);

– Deus muda o nome de Jacó para Israel (Gênesis 32:28);

– Jacó diz que viu Deus face a face (ou seja, reconheceu quem Ele é), e que a sua alma foi salva. (Gênesis 32:30)

Após isto, Jacó/Israel se encontra com seu irmão Esaú e se reconcilia com ele – alguns dizem que quando Jacó lutou com o anjo, Deus mudou o coração de Esaú para não atacar seu irmão. Eu acredito que Esaú não tinha intenções de atacar a Jacó, mas o medo que ele sentia o fez buscar a Deus por algo que não era necessário. Mas ver como Deus o respondeu em sua angústia mesmo não tendo uma ameaça real para tal, foi uma forma de ver como Deus era com Ele e dEle – tanto que este é justamente um dos motivos dados pro Jacó ao erguer um altar a Deus (Gênesis 35:3). Após se despedir de Esaú, Jacó/Israel levanta um altar e, antes mesmo de chegar na terra do seu pai (que era a parte final daquele voto que ele havia feito em Gênesis 28), entra no terceiro estágio do relacionamento com Deus, o reconhecimento (Gênesis 33:20), quando ele chama Deus de “Deus de Israel”, ou seja, meu Deus. Esta foi a primeira vez que Jacó reconheceu e chamou a Deus como seu Deus também, não apenas de seus pais. A prova desta mudança não aparece quando ele ergue o altar, ao meu ver, mas sim quando, após lutar, Jacó não apenas pede a benção do anjo, mas também quer saber o seu nome (Gênesis 32:29). Para Jacó, não basta mais o que Deus faz, mas também saber quem Deus é.

*RECONHECIMENTO*: Gênesis 33:20 – Jacó “ levantou ali um altar, e chamou-lhe: Deus, o Deus de Israel.”

Duas coisas me chamam a atenção nesta noite em que Jacó lutou com o anjo:

1) Jacó fica completamente sozinho no vale, ou seja, ele ‘abre mão’ de tudo que conquistou, tudo que lhe é precioso. Só quando ele faz isso (perde tudo ou se depara com a realidade que irá perder tudo), que o anjo aparece para batalhar com ele. As conquistas perdem valor perto do conhecimento de Deus. Em vários casos vemos isto: Jó (que perdeu tudo e depois se encontrou com Deus no redemoinho), Isaías (que perdeu o rei e depois viu Deus assentado em seu trono ao entrar no templo), Saulo/Paulo (que era um religiosos ferrenho mas reconhece Deus no caminho de Damasco sem ao menos saber quem Ele era) e outros.

2) No momento que Jacó reconhece a Deus, ao meu ver ocorre uma mudança clara na percepção de Deus – antes, ele pedia o que precisava e barganhava (se você fizer isso, você será meu Deus). Depois, ele reconhece que Deus é que estabelece as regras e que Deus é o foco (Deus se torna o Deus de Israel antes que as ‘condições’ impostas por Jacó no voto fossem completas). Isto é algo que vemos em todos que reconhecem a Deus por quem Ele é – vemos na vida de Paulo (que aceita o seu espinho na carne e diz que tudo que conquistou é lixo perto de conhecer a Deus), Pedro (que nega a sua religiosidade para aceitar o que Deus diz), Moisés (que mesmo não entrando na terra prometida, queria mesmo ver a face de Deus) e tantos outros.

Ou seja, há uma ruptura necessária para reconhecermos a Deus – é necessário primeiro ‘enfrentar/ver’ a Deus sem que nada que tenhamos ou conquistamos esteja no caminho. Isso não quer dizer que temos que literalmente perder tudo como Jó, mas temos que ter a disposição de perder tudo se for necessário para chegarmos a Deus, como vemos na parábola do homem que vende tudo que tem para comprar um terreno pois ali há um tesouro (Mateus 13:44) ou a do comerciante que vende tudo que tem para comprar uma única pérola de grande valor (Mateus 13:45-46). Isto faz com que o foco de nossas vidas seja mudado completamente para Deus – no começo Deus é bom (1), depois Deus é importante (2), mas após esta ruptura Deus passa a ser necessário e indispensável (3).

Quem conhece a Deus, sabe o que Deus faz. Quem reconhece a Deus, conhece quem Ele é.

Quem conhece a Deus, pede o que quer. Quem reconhece a Deus, aceita o que Ele dá.

Quem conhece a Deus, anda no caminho. Quem reconhece a Deus, anda no caminho da forma que Deus quer.

Quem conhece a Deus, conversa com Deus. Quem reconhece a Deus, batalha e é tocado por Ele.

Quem conhece a Deus, é chamado pelo que é visto pelos homens. Quem reconhece a Deus, é chamado pelo que é visto por Deus.

A minha oração é que não haja contentamento em nosso coração até que Ele venha, até que O conheçamos como Ele é, até que seja formado em nós um coração que O busca e O anseia, um coração como o de Jesus.


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