Semeando Esperança


12/06/2013 – Megalomania gospel
12/06/2013, 11:41 pm
Filed under: Semanal

(Antes de começar a reflexão, quero deixar claro que não tenho nada contra pastores e cantores evangélicos na mídia. A minha crítica é quando se usa o evangelho para exaltar a própria imagem ou para divulgar uma mensagem com o foco em si mesmo e não em Deus.)

Na mídia, vemos os ‘evangélicos’ falando pelos cotovelos. Alguns com tons agressivos e arrogantes, falando como donos da verdade, decidindo quem é digno ou não de desfrutar das “delícias do evangelho.” Vemos também os “anti-evangélicos” falando pelos cotovelos também, criando inimizade, antagonismos e fazendo críticas severas, nem sempre infundadas. A verdade é que “ser crente” tá na mídia (até na novela!) e dá ibope, sucesso, exposição e até fama.

Infelizmente, parece que hoje a “obra de Deus” tem que seguir os moldes da sociedade – ter alcance midiático, atrair multidões com uma mensagem “light” e adaptada para todos os gostos, ter apoio de (sub)celebridades e receber vários “curtir” e “compartilhar”. Se não aparece, é esquecido. Mas estão esquecendo que a verdadeira obra do evangelho não é algo aparente, pois ela é feita entre as quatro paredes do coração, renovando nossa vida e esperança, transformando o ser humano de dentro pra fora – mudando a essência antes de mudar a camiseta. A obra de Cristo revela a Deus e nunca a si mesmo, justamente para que ninguém se glorie – como João Batista mesmo disse: “convém que Ele cresça e eu diminua” (João 3:30).

Você pode dizer que está em uma igreja que não se envolve com essas coisas ‘mundanas’, mas será que mesmo assim estamos ilesos dessa “megalomania gospel”? Olhe bem as pregações e profecias que ouvimos ou até as orações que recebemos: “Deus vai impactar nossa nação”, “Deus vai mudar a nossa cidade”, “Deus vai mudar o bairro”, “este será um grande homem de Deus”, “este será um profeta enviado às nações”, “este será colocado sempre por cabeça e nunca por cauda”. Se realmente essa profetaiada toda fosse verdade, não veríamos missionários passando necessidade, almas se perdendo sem nenhuma ação da igreja, nem os “campos brancos mas sem ceifeiros o bastante”.

Nossas próprias igrejas e nossos próprios líderes se envolvem no “samba da auto-exaltação” e se preocupam mais em exaltar o homem do que chamar a atenção de Deus. Não se prega mais a importância de uma vida constante à luz do evangelho – não se ouve mais ensinamentos e exortações como “você deve ser um bom profissional”, “você não terá fama, mas saberá cuidar da sua família”, “você foi escolhido para ser um membro anônimo desta igreja, apoiando o crescimento com suas orações e ofertas em oculto”, “você irá dar oferta e não receberá nada em troca, apenas a certeza de que a obra de Deus continuará sustentada”. Este tipo de mensagem perde a força pois não é comercial, não dá fama e fortuna.

Nossos votos são para atingir benção materiais (e isso inclui também quando se diz que quer ganhar almas apenas para aumentar o número de membros da sua igreja); nossas orações são focadas apenas em apresentar as nossas necessidades ou falar do nosso sofrimento; nossos cultos seguem uma rotina que agrada os membros para assegurar que eles voltarão no domingo que vem; nossos louvores falam muito mais de nós mesmos do que de Deus. Uma das frases que mais ouço de muitos novos-convertidos é: “O que Deus pode fazer por mim?” Já estão aprendendo errado.

[Apenas como exemplo de louvor focado no homem, olha a letra de uma estrofe do hino “Sabor de mel” da Damares:
“Quem TE viu passar na prova e não TE ajudou, quando ver VOCÊ na benção vão se arrepender. Vai estar entre a plateia e VOCÊ no palco, vai olhar e ver Jesus brilhando em VOCÊ. Quem sabe no TEU pensamento VOCÊ vai dizer, Meu Deus! Como vale a pena A GENTE ser fiel. Na verdade a MINHA prova tinha um gosto amargo, mas MINHA vitória hoje tem sabor de mel.”
Deus aparece duas vezes no verso – quando ele “brilha em você” e em uma expressão idiomática (Meu Deus!). Agora o “EU/VOCÊ/MEU/TEU” aparece dez vezes.]

Meus irmãos, sei que não é fácil ler o que vou escrever a seguir, mas é algo necessário. São duas coisas que precisamos entender:

1) Nada no evangelho tem o foco em nós. O foco sempre é Cristo

Quem vai convencer dos erros? Quem salva? Quem cura? Quem liberta? Quem sara? Jesus. Só Ele é digno de tal posição e só Ele tem que aparecer. Como Paulo diz em I Coríntios 3, a gente pode até plantar, regar e cuidar, mas nada disso faz diferença se Cristo não der o crescimento. Nosso papel é renovar a nossa mente no conhecimento de Cristo (Romanos 12), ajudar os irmãos da fé para que também o façam e espalhar esta mensagem – as boas novas do Evangelho. Para renovar vidas, eficaz não é nossa ação social, página no facebook ou programa no rádio. É o agir transformador dEle que é eficaz, independente da dimensão da sua ação ou projeto. Mas parece que já fomos viciados a buscar a solução nas nossas forças e também a carregar o peso nas nossas costas.
Se a sua vida na igreja ou sociedade tem feito você aparecer mais do que a Cristo, há algo errado. Lembrando que a primeira atitude de quem escolhe a Cristo é “negar-se a si mesmo”.

2) O Evangelho não precisa ser ’embelezado’ para atrair mais gente

Evangelho não é mercadoria para ser vendida e apresentada de uma forma agradável para ter mais seguidores. Como está escrito em Romanos 1, o Evangelho é poder de Deus (não nosso) para a salvação. O Evangelho confronta, ele corta, invade e nos mostra que somos incapazes e indignos sem a graça de Deus. O evangelho é como Jesus mesmo, como vemos lá em Isaías – na aparência, não há nada de belo e nada que queremos. Mas na convivência e na caminhada, ele se torna irresistível. O evangelho não precisa de nós.
—-

Mais do que realizar eventos, cuidar de pessoas.
Mais do que fama, o anonimato saudável.
Mais do que direitos, realizar nossos deveres.
Mais do que mega-templos e programas de tv, assistência e engajamento social.
Mais do que grupos sociais nas igrejas, irmãos em Cristo que se ajudam como famílias.

Que Deus nos ajude a ser pequenos, diminuindo cada vez mais. Que Deus nos ajude a ser mais cristãos e menos como os que se dizem “evangélicos”.


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