Semeando Esperança


03/05/2013 – Das coisas que ficam no bolso e daquelas que ficam pra trás
03/05/2013, 5:40 pm
Filed under: Semanal

Se você faz parte de uma igreja há algum tempo, com certeza você já ouviu uma pregação com base em Filipenses 3:13 (esquecendo do que ficou pra trás e seguir em frente) ou talvez em II Coríntios 5:17 (as coisas velhas passaram e tudo se fez novo). Sem dúvidas, abandonar o passado é parte inerente da vida cristã. Porém, quando Paulo diz que TUDO se faz novo, eu me questiono: será que deixamos TUDO que nos é nocivo para trás ou apenas aquilo que é óbvio?

Vamos considerar um cenário: você está de mudança e está carregando várias malas, mochilas e sacolas. Inclusive os bolsos estão todos cheios. Quando temos que nos livrar do peso, começamos com os maiores e mais pesados, certo? Mas os bolsos muitas vezes são esquecidos. Ou quem aqui nunca “achou” algo no bolso de uma calça depois de ter sido lavada? Aquela nota de dinheiro que você secou com o ferro de passar roupa com todo cuidado pra não rasgar, por exemplo.

Vejo que a mudança da vida de alguém que se torna cristão funciona de forma similar – quando a pessoa opta por seguir a Cristo, ocorre uma mudança radical. Vícios são abandonados, temperamentos são transformados, relacionamentos são restaurados. Toda a bagagem ruim começa a ser retirada, dando lugar para que o fardo leve de Cristo (Mateus 11:29) seja carregado. Pode-se dizer que deixamos para trás as “malas maiores” neste momento, aquelas que são aparentes e mais pesadas. Mas e os nossos bolsos, carteiras e bolsas? As posturas erradas e desvios de caráter que não são evidentes?

Muitas das vezes, acabamos mudando aquilo que é aparente, mas tentamos postergar (ou até manter) aquilo que conseguimos manter oculto. O que nos faz abandonar algumas coisas e esconder outras? O que nos impede de passar por uma transformação completa e nos tornarmos pessoas totalmente livres, cujo passado seja apenas uma lembrança e não um fardo ou obstáculo? O que nos faz ouvir Jesus bater na porta, mas abrir só pela metade? A meu ver, os motivos serão expostos em ordem crescente de “grau de transformação externa” e também de “necessidade de mudança interna”.

Talvez o motivo seja a falta de confiança na palavra de Deus. Ouvimos as promessas e os ensinamentos, porém não colocamos isso em prática. Isso ocorre porque nos falta o conhecimento (Oséias 4:6) – veja bem, a Palavra de Deus é viva (Hebreus 4:12) e a única forma de realmente conhecê-la é vivendo os seus preceitos. Quando Paulo disse a Timóteo que ele deveria “viver nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção” (II Timóteo 3:14), ele exemplifica este fato. Não basta aprender, é preciso viver. Quando não vivemos, não conhecemos. Quando não conhecemos, não confiamos. Quando não confiamos, não mudamos.
Saulo conheceu a palavra, confiou em Deus e viveu o que conhecia. Tornou-se Paulo e, por causa dele principalmente, nós podemos conhecer o evangelho. Os espias conheciam a promessa (Números 13-14), mas confiaram em suas forças. Pereceram no deserto para que se erguesse uma geração que pudesse entrar na terra prometida por crer e agir. O “viver pela fé” (Romanos 1:17) nada mais é que colocar em prática a palavra de Deus porque se confia no Deus da palavra.

Talvez o motivo de não abraçar por completo a mudança proposta por Cristo é por ter uma estima ou grande apego pelo passado (“os bons tempos”) ou pelos próprios vícios e atitudes ruins (“pecados de estimação). Talvez você seja uma das pessoas que não largam o passado porque não conseguem ver um futuro. Talvez você seja uma das pessoas que não abre mão das atitudes erradas por medo de perder a sua identidade ou seus amigos. Lembro de uma das frases de Santo Agostinho: “Deus, me faça ser puro – mas não agora.” Isto ocorre também por não conhecermos o fato de que Deus cuida de cada um dos detalhes da nossa vida (Mateus 6:31-33) e, portanto, não conseguimos ter fé de que teremos um futuro ainda melhor, que nossas amizades e relacionamentos serão moldados e transformados pela ação renovadora do Espírito de Deus. Com Deus, o que é ruim fica bom, e o que é bom, fica melhor.

Ou talvez, quem sabe, o motivo da resistência em aceitar a mudança é por se achar tão envolvido no peso da culpa por seus erros no passado que já não há mais salvação. Toda vez que me encontro em uma situação assim, me lembro da passagem em que uma mulher que estava praticando adultério é colocada na frente de Jesus (João 8:1-11). Após dizer que só deveria atirar uma pedra aquele que não tivesse pecado e fazer com que todos fossem embora, Ele faz uma pergunta que ecoa no coração de todos: “Onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?” A resposta que a mulher dá no versículo 11 é “ninguém me condenou”. Mas o que vejo muitas vezes é que, se Jesus fizesse a mesma pergunta para nós, a nossa resposta seria “eu me condenei, eu me condeno” – mesmo sabendo que no mesmo versículo, Jesus diz “Eu não te condeno”. Jesus não nos julga como os homens (João 8:15) e Ele não nos rejeita (João 6:37) – além de não nos imputar nossos pecados (II Coríntios 5:19), Ele também apaga os nossos erros (Isaías 43:25) e se esquece deles! Se Deus não nos acusa, ninguém pode nos acusar (Romanos 8:33), nem mesmo nós mesmos. Quando ainda éramos pecadores, Jesus escolheu morrer por nós. Portanto, mesmo pecadores, pelo sacrifício de Cristo, nós somos capazes de mudar.

A última razão que quis abordar no texto sobre a incapacidade de mudar por completo é uma que persegue muitas pessoas que foram criadas em um meio religioso ou uma sociedade cujos mores são profundamente arraigados. O medo de expor o erro – ou melhor, o medo de ser visto como alguém que erra. Somos obrigados a aparentar padrões sobre-humanos de moral, conduta, espiritualidade e ética – para que isso seja atingido, nós “apenas” temos que negar a expressão da nossa natureza. Continuamos a moldar e transformar a nossa aparência, dando aos outros uma idéia de crescimento espiritual e social, e isto nos leva a uma maior pressão para esconder os pecados e desvios de conduta. Infelizmente, não há como parar a mudança. Ou seja, se não estamos indo em direção ao padrão saudável, inegavelmente caminhamos para um padrão ainda mais doente.

Talvez você já tenha visto alguns dos cenários abaixo e, quem sabe, consegue adicionar muitos outros:

– A pessoa esconde que fuma/bebe porque será julgado como profanador do templo do Espírito, aos poucos pode acabar usando drogas mais pesadas.
– O rapaz esconde o vício na pornografia, pois isto criará uma marca de pervertido sexual, aos poucos isso poderá levá-lo a uma vida de infidelidade conjugal.
– A moça não pode admitir para seu líder de mocidade que sente desejo sexual por um rapaz, pois será julgada impura e possessa por demônios, então acaba optando por se relacionar escondido e pode acabar aparecendo grávida em casa.
– A pessoa que esconde que gosta de ir para balada, mas esconde porque se não será taxado de desviado e infiel.

A Bíblia nos conta em Lucas 6:6-11 uma história sobre um homem que tinha uma mão atrofiada. Para a época, ter este defeito o impedia de participar de várias atividades do templo e outras coisas mais. Era motivo de grande vergonha, por isso ele andava com a mão oculta na roupa. O que me chama atenção é a forma como Jesus opta por curá-lo: Ele diz para o homem se levante e venha até o meio da multidão (Lucas 6:8). Depois, Jesus fala para o homem estender a mão. O homem estendeu e foi curado. Jesus basicamente falou para o homem: “se você quer ser curado, terá que mostrar aquilo que te envergonha, aquilo que você esconde”. Se nós realmente queremos mudar, se realmente queremos deixar para trás o passado, temos que estar disposto a expor aquilo que escondemos. Claro que deve ser feito com sabedoria – conversar com um amigo ou líder de confiança, orar com ele e deixar a prática – esta é a instrução que recebemos em Tiago 5:16. Não há necessidade de subir no púlpito para declarar que precisa de perdão porque fumou maconha e transou com a namorada. O intuito de Cristo nunca é envergonhar, mas sim restaurar e curar.

Talvez você ainda ache que é possível crescer em Cristo e guardar algumas coisas que “não fazem mal a ninguém”. Vemos em Marcos 10:46-52 o relato da cura do cego de Jericó. Ele clama por Jesus em alta voz, é repreendido, mas continua a gritar até que Jesus o chama. No versículo 50, está escrito que ele “lançou fora a sua capa, se levantou e foi ao encontro de Jesus”. A capa era o símbolo da sua cegueira, da sua vida como pedinte. A capa era o símbolo da sua vida até então. Mas quando Ele é chamado por Jesus, ele sabia que ele não precisaria mais da capa.

Da mesma forma, Jesus ouviu o nosso clamor e nos chama hoje. Não importa se até hoje você era um mendigo ou um grande líder (como Paulo); não importa se era inculto, como Pedro ou um estudioso, como Lucas; se era um homem digno ou um criminoso; não importa se você trabalha sem parar como Marta ou se prefere repousar, como Maria. Quando Jesus nos chama, nada do que veio antes significa nada. Mas cabe a nós lançarmos fora a capa (ou tirarmos de nossos bolsos, carteiras, bolsas) e irmos em direção a Ele. Quando Ele nos chama, só assim podemos realmente mudar.


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