Semeando Esperança


11/03/2013 – Oração: sem braço de ferro e sem receita de bolo
11/03/2013, 10:45 pm
Filed under: Semanal

Em julho do ano passado, abordei a oração como tópico de uma reflexão. Naquele texto, falei um pouco sobre a necessidade de orarmos sem parar (I Tessalonicenses 5:17) e os efeitos de uma vida de oração. Dentre eles, desenvolver o relacionamento com Deus e combater a rebeldia. Além disso, a Bíblia nos diz para orar de dia, pela manhã, ao meio dia, à tarde e de noite (Salmo 88:1-2 e Salmo 55:16-17). A Bíblia também nos diz para orar por todos (I Timóteo 2:1) e em todos os lugares (I Timóteo 2:8). A única coisa que todos os homens fazem com estas características – em todo o tempo e independente do lugar – é respirar. O que nos mostra como Deus encara a oração como essencial: pode-se dizer que para nossa vida com Deus, como oramos revela nossos sinais vitais.

Apesar de ser possível desenvolver mais vários temas sobre o que a oração é e o que ela representa, o intuito desta reflexão é destacar justamente o contrário. Há diversas concepções erradas em relação à oração – concepções que, muitas vezes, têm sido propagadas pelos próprios líderes religiosos nas igrejas e templos. Destaquei três destas concepções para reflexão:

1) A receita de bolo

Estamos na época dos livros de auto-ajuda, das palestras e livros que começam com “5 passos para isso” ou “10 passos para aquilo”. O ser humano está cada vez mais preguiçoso e tentando “terceirizar” cada vez mais as atividades – inclusive, infelizmente, pensar. Esta tendência tem invadido as igrejas também, com suas mensagens pré-preparadas (basta esquentar no microondas e servir) e discursos padrões. A oração, como era de se esperar, também caiu nesta tendência.

Se você frequenta alguma igreja (ou assiste algum tele-evangelista), é provável que já tenha ouvido alguém fazer um discurso assim: “Faça uma lista do que você quer, seja objetivo, não se esqueça de pedir em nome de Jesus pois Ele é chave da vitória – Deus TEM que te abençoar se você pedir em nome de Jesus.” Estes ‘pastores’ pregam usando versículos que são distorcidos de seu contexto, tudo para parecer que, assim como no Mc Donalds, basta pedir e pagar que, dois guichês à frente, você retira o que pediu. Ou seja, a oração nada mais é do que um pedido que deve ser detalhado para que o nosso garçom Jesus Cristo leve até Deus (já com o dinheiro) e volte (sem demora!) com as bençãos na mão.

Aquele versículo em Filipenses 4 que diz que nossas petições devem ser em tudo conhecidas perante Deus provavelmente é de onde esses ‘pastores’ tiram esta idéia de fazer uma “lista” e ser objetivo. Quando vejo este tipo de postura, penso que logo logo algum pastor irá dizer que não se pode mais ter gordos e altos nas igrejas, por causa do que tá escrito em Isaías (Isaías 10:16 e Isaías 10:33).

Ao invés de encararmos Cristo como um garçom de luxo, pensemos no seguinte cenário:

Um adolescente chega pro seu pai e fala:
“Pai, eu quero ir ao cinema. Me dá dinheiro?”
Aí o pai pergunta:
“Que horas você vai? Com quem você vai? Qual filme? Quanto de dinheiro? Que horas você volta? Quem te leva e te busca?”
O adolescente você responde tudo. Ou porque sabe que seu pai está te perguntando porque se preocupa com você (difícil, hein?) e ou porque simplesmente quer que ele te dê o dinheiro logo (mais provável). Da próxima vez que ele for pedir dinheiro pra ir ao cinema, como que ele chega?
“Pai, vou ao cinema com o Joãozinho, vamos ver tal filme. A mãe dele vai levar a gente e me deixa aqui às 10h da noite. Você pode me dar dinheiro pra ir?”
O adolescente do exemplo não criou uma lista do que queria, ele não “jogou na cara” do pai a obrigação dele te sustentar o filho, não usou uma receita para ser objetivo e atingir sua meta. Ele simplesmente aprendeu a ouvir o seu pai e sabe o que ele quer saber.

Entendo que nosso relacionamento com Deus é dessa mesma forma. Orar é falar e ouvir, um diálogo com Deus. Pedir em nome de Jesus significa pedir no lugar de Jesus. Jesus pedia como um filho que conhecia o Pai. Para orarmos no nome de Jesus, também temos que nos tornar filhos que anseiam por conhecer ao pai. Seguindo o exemplo do nosso irmão mais velho, orando com simplicidade e sinceridade – sem argumentos infalíveis, sem palavras rebuscadas – sem receitas de bolo.

2) O braço de ferro

Uma vez fui a uma igreja que o pastor falou o seguinte: “Você dá oferta? Você é dizimista? Então você tem o direito de pedir a Deus que te abençoe. Deus é obrigado a te abençoar! Coloca Deus na parede e diga que você não irá sair deste culto sem a sua benção.” Eu não sabia se ria ou chorava – considerando que boa parte da igreja estava “colocando Deus contra a parede” nas orações, eu acho que chorar seria a opção.

Temos que entender que a oração não é um “cabo de guerra em que impomos nossa vontade e ‘ganhamos’ de Deus, O obrigando a fazer o que queremos”. Esta é uma outra concepção equivocada, que diz que temos que argumentar, convencer e “brigar” com Deus para termos a nossa resposta. Como um menino birrento e mimado que bate o pé para fazer o pai fazer algo.

Infelizmente, essa forma de pensar tem se proliferado muito em nossas igrejas. Esta visão de que aqueles que ofertam mais são “privilegiados”, que eles “cortam a fila” para receber bençãos ou que dá direito a um reles ser humano de falar de forma desrespeitosa é anti-bíblica e anti-cristã. Vimos no publicano no templo a forma de oração que agrada a Deus (Lucas 18:10-14) – não porque usou as palavras “respeitosas”, mas porque tem a clara percepção de quem Deus é e como o homem não é nada perante Ele. Quando se encontra a Deus, até aqueles que são profetas, como Isaías, acabam percebendo que são apenas “homens de lábios impuros” (Isaías 6:5).

Ninguém “puxa” Deus para si – nós que somos atraídos a Ele (João 12:32).
Ninguém “põe Deus contra a parede” – sem a misericórdia dEle, já teríamos sido destruídos (Lamentações 3:22).
Ninguém “manda Deus fazer algo” – a criatura não pode mandar em seu criador (Isaías 45:9).

A sua oferta ou dízimo não “compra” a Deus – Ele já é dono de tudo e todos (Salmo 24:1). O coração disposto oferta sem culpa ou remorso e também sem esperar algo em troca. Não existe meritocracia no Céu; Deus não te escolheu baseado no que você faz ou por quem você é, mas por quem Ele é (um Deus que busca se relacionar conosco) e pelo que Ele fez (ao morrer na cruz por nós). Se fosse por merecimento, ninguém se salvaria pois na terra não há nem um justo (Romanos 3:10).

Resumindo: nós que só levantamos pela manhã pela misericórdia de Deus (Lamentações 3:23) e que estamos à mercê completa daquEle que pode tudo, temos que nos colocar no nosso lugar, humilhando-se debaixo da potente mão de Deus (I Pedro 5:6) para que Ele, no momento certo e da forma que Ele escolher, nos exalte (I Samuel 2:8) e nos abençoe.

Afinal, braço de ferro com aquEle para quem a Terra é apenas o repouso dos seus pés (Isaías 66:1) não parece ser uma idéia muito inteligente.

3) O “homem de Deus”

A última concepção falha sobre oração que quero abordar é sobre a da atual mania de pensar que alguns “homens de Deus” com suas “orações fortes” (eu nunca entendi o que isso quer dizer) tem um acesso privilegiado a Deus no momento de orar. Antes que gere problemas, não estou aqui dizendo que não existem “homens de Deus” – muito pelo contrário. Eu não só acredito que isso é real, como acredito que todos que buscam a Deus o são. Todos os homens foram assegurados por intermédio do sacrifício de Cristo, livre acesso ao Pai (Efésios 3:12).

O problema é que ficamos tentando criar (ou somos levados a criar) uma perspectiva de que ter um relacionamento com Deus é algo “admirável” e que um homem ou mulher “de Deus” são pessoas que merecem respeito por esse motivo. Ao meu ver, esta perspectiva é errada. Relacionamento com Deus não é algo que temos que desenvolver para sermos “exemplares” ou “admirados”. Temos que ter um relacionamento com Deus porque é a única forma da nossa alma se sentir “em casa” sempre. Apenas perto dEle somos realmente quem temos que ser. Como disse certo pastor uma vez, “Através de Jesus, vemos Deus por quem Ele realmente é. E vemos os homens por quem eles deveriam / conseguiriam ser”. Só seria digno de admiração o homem que, ao se olhar no espelho, consegue não mais ver a si mesmo, mas Jesus no lugar.

Parece que Deus ouve mais a oração de certas pessoas porque através da oração delas, Deus age com maior freqüência. Mas isto não é porque a pessoa é especial, mas simplesmente porque ela busca a Deus. Quem busca Deus, o conhece (Isaías 55:6 e Oséias 6:3). Quem o conhece, entende a sua vontade (Efésios 5:17). Quem entende a sua vontade, ora em concordância com a vontade de Deus, ou seja, ora em nome (ou no lugar de) de Jesus (João 15:16). Isto não é um privilégio de alguns ou de uma elite religiosa – quando o véu do templo se rasgou, todos possuem acesso a Deus. Todos podem buscar e encontrar, todos podem se tornar homens e mulheres de Deus.

É uma questão de escolha individual. Normalmente, uma vida de oração está vinculada à uma vida de sofrimento porque a natureza deturpada do homem o leva a buscar a Deus apenas na necessidade. Mas há diversos casos de homens e mulheres com vidas confortáveis e até com muitas posses que também tem um relacionamento franco com Deus. O que ocorre, muitas vezes, é que tentamos colocar os limites no relacionamento com Deus tentando separar a parte espiritual da parte natural (veja bem, é diferente ser natural e ser carnal, mas o nosso relacionamento com Deus deve englobar todas as áreas). A nossa natureza é espiritual e eterna, mas acabamos nos apoiando na nossa existência corpórea e temporal.

Se você é uma destas pessoas que ficam pulando de igreja em igreja buscando profetas que orem, se você é uma destas pessoas que acham que apenas uma certa elite pode buscar a Deus (e que você não está nela), se você é uma destas pessoas que não se julgam dignas de terem um relacionamento com Deus, quero te dizer que o preço já foi pago por você. Não é por merecimento ou por ser digno, mas porque Ele nos amou. O sacrifício de Cristo selou o nosso acesso – apenas Ele serve como intermediador entre nós e Deus. Não é o pastor X ou o apóstolo Y, não é a missionária Z ou o evangelista W. Apenas Jesus.

Então nós, que somos ‘anônimos’ também podemos (e devemos) desenvolver um relacionamento com Deus, que é fortalecido por intermédio da oração. Conhecendo a Deus, nos tornamos como Davi que mesmo sem nome ou respaldo (I Samuel 17), se levantou contra Golias e venceu. Ele entendeu uma coisa que nós também temos que entender – com Deus, um é mais que o bastante. Com Deus, um é maioria.


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