Semeando Esperança


07/02/2013 – Santa Maria e o Santo dos Santos
07/02/2013, 12:16 am
Filed under: Semanal

Desde o pecado original, quando Deus ainda andava entre os homens, um fator permanece imutável: o homem sempre vive as consequências de suas ações e erros. A ação ou o perdão divino não isentam a pessoa de carregar o fardo das suas ações. Essa visão equivocada de que aceitar Jesus te dá “carta branca” para evadir a sua responsabilidade com sua ações é proliferada em demasia no imaginário da igreja. Este tipo de pensamento faz com seja criada uma espécie de visão de ‘superioridade’ dos cristãos frente aos “ímpios”. Que no momento que você se torna cristão, você ganha um status diferenciado. Você entrou na sociedade dos crentes e agora você tem direito a subir em um pedestal de santidade e definir que os motivos de sofrimento de uma pessoa é decorrente do fato de ela não fazer parte do seu grupo. Tenho certeza que muitos dos leitores deste texto que são ou foram de igreja evangélica, em algum ponto da sua vida já ouviu alguém dizer que “fulano está sofrendo porque está em pecado” ou que “isso aconteceu porque ele saiu da igreja”. Na minha opinião, esta perspectiva de “status privilegiado” está errada por dois motivos.

O primeiro, de um ponto de vista mais filosófico, é que a sua fé pode ser posta em xeque no momento em que algo ruim acontece. O cristão que tem esta postura acha que é intocável pelos males e tragédias do mundo, mesmo Jesus tendo dito que “no mundo passaríamos por aflições” (João 16:33) e que “a chuva cai sobre justos e injustos” (Mateus 5:45). No momento que se depara com o primeiro dilema da sua vida – seja o falecimento de um ente querido, perder o emprego ou não conseguir “aquela benção” mesmo depois de ter feito a campanha e pagado o voto – ele não consegue mais sustentar a sua fé. Isto ocorre pelo simples fato de que o sustentáculo da sua fé não é Cristo, mas a doutrina (ou seria melhor dizer ‘propaganda’) enganosa que ele ouviu em algumas igrejas. Se o cristão se esforçasse para ler apenas um pouco da Bíblia, veria que esta postura não é apenas anti-ética, mas também anti-bíblica. O que me leva ao segundo motivo.

O segundo, de um ponto de vista mais prático, é que esta postura nos afasta do verdadeiro ensinamento de Cristo. Em nenhum momento da sua vida, Jesus se levantou acima dos outros ou exigiu um privilégio por ser filho de Deus. A Bíblia nos conta que Ele se “aniquilou e abriu mão da sua glória” (Filipenses 2), enquanto alguns se exaltam pelo fato de serem “homens de Deus”, infelizmente se assemelhando ao fariseu na sinagoga, relatado em Lucas 18:11. Jesus andou entre os pecadores (Mateus 11:19) e fez com que Deus fosse visível entre eles, enquanto alguns dos cristãos de hoje se misturam nos pecados e crimes e acabam sendo tragados pelas trevas. Nunca se ouviu tantos escândalos envolvendo evangélicos – desde envolvimento com abusos sexuais até participação em tráfico de drogas. A maioria alega que fazia isso sob o aval de Deus, ou seja, justificando seus atos por intermédio de uma ‘posição superior’. Um tempo atrás, tinha até uma quadrilha que assaltava bancos, mas orava antes – encontraram o revólver de um dos bandidos com um versículo gravado.

Mas o motivo de levantar esta questão é porque fiquei muito entristecido (e com raiva, para ser honesto) ao ler alguns comentários sobre a tragédia ocorrida na boate em Santa Maria algumas semanas atrás em que mais de 200 jovens perderam as vidas e, os que sobreviveram, sem dúvida também morreram um pouco naquele dia. De um lado, alguns questionando “onde estava Deus neste momento”. Do outro, uns dizendo que isso era “punição divina”, que “se conhecessem a Jesus não estariam em uma balada e teriam sobrevivido”. Parei de ler antes que achasse um comentário (bem provável) dizendo que os jovens mereceram morrer por estar em pecado e atirasse o computador pela janela.

Eu não sei que Deus estes “cristãos” seguem, mas definitivamente não é o mesmo que está na Bíblia. De novo, se colocando nesta ‘perspectiva preferencial’, julgam os outros (como você pode dizer que alguém é ou não cristão só pelo fato de ele ir a uma balada?), condenam as pessoas (falando sem nenhum respeito pelos outros que as pessoas sofreram uma punição por não estarem de acordo com sua visão distorcida de santidade) e ainda dizem que isso só aconteceu porque eles não eram cristãos. Ou seja: se o teto de uma igreja cai e mata pessoas, é o diabo atacando. Se uma boate pega fogo, é Deus punindo. Não entendo esta falta de nexo ou como uma pessoa que se diz cristã tem coragem de falar isso, de desrespeitar e agir de forma tão anti-cristã em relação às outras pessoas. Absurdos.

Quem aqui pode dizer que por ser cristão nunca passou por momentos difíceis? Nunca sofreu um assalto ou foi traído por alguém? Quem ousaria dizer que cristãos não são vítimas de tragédias? Quando Jesus disse que o sol e a chuva caem sobre justos e injustos, Ele nos deixou claro que ninguém está isento. O câncer mata, o carro atropela, o bandido assalta tanto o cristão quanto o não cristão. Usar uma cruz no pescoço ou a Bíblia debaixo do braço não funciona como amuleto para te tornar intocável e invencível.

A boate não pegou fogo por motivos sobrenaturais de um diabo assassino ou um deus vingativo. A boate pegou fogo porque uma pessoa acendeu um sinalizador em um local fechado, porque uma pessoa supostamente subornou uma outra para dar um alvará sem fazer a devida fiscalização, porque as autoridades não fizeram o seu trabalho direito e porque pela ganância para ganhar dinheiro, a segurança foi negligenciada. Como disse lá no começo do texto, o homem tem que assumir as consequências dos seus atos. Neste caso, as ações (ou falta delas) acumuladas de vários homens geraram as consequências que acompanhamos nos noticiários.

Antes que seja chamado de infiel, quero deixar claro que eu creio em Deus. Creio na intervenção sobrenatural dEle e também creio que em muitas ocasiões, Deus livra pessoas de acidentes, cura pessoas de doenças e faz milagres. Não creio em um Deus sádico que fica fazendo joguinhos e usando violência para obrigar pessoas a se voltarem pra Ele ou para dar argumento para santarrões ficarem acusando os outros. Creio em um Deus que não apenas ama sem julgar e que age baseado neste amor – creio no Deus que é de fato revelado na Bíblia através da pessoa de Jesus. Creio em um Deus que é justo e que respeita a nossa liberdade de escolher, mesmo que seja para fazer algo errado. Um Deus que é pai que ensina – que não impede o filho de aprender protegendo de todas as mazelas do mundo. Mas que está sempre presente para ajudar o filho a se levantar quando cai, para consolar quando há tristeza e celebrar quando há alegria.

Onde deveriam entrar os cristãos neste momento terrível, então?
Com palavras imbecis de julgamento e condenação (como as que Jesus ouviu injustamente quando foi acusado perante o sinédrio)? Ou devemos falar como Jesus teve e pediu para Deus que perdoasse o povo pela ignorância (Lucas 23:34) mesmo quando estava sendo atacado?
Com uma postura condescendente e arrogante, dizendo que isso só aconteceu porque não eram “como nós”? Ou como Jesus que olhava as multidões e tinha compaixão (Marcos 6:34)?

Se a nossa atitude não for capaz de trazer vida (porque Jesus é a vida), não for capaz de trazer à tona a mensagem clara do evangelho de que Deus ama a todos e não quer que ninguém se perca, temos que, primeiramente nos calar e depois voltar a colocar nossos joelhos no chão e pedir a Deus que nos ensine o que realmente ser cristão. O verdadeiro cristão é aquele que enxerga a dor do seu próximo, oferece suas costas para ajudar a carregar o fardo e age como Jesus (João 11:35) e Paulo (Romanos 12:15) agiram. O cristão é aquele que se permite ser instrumento de Deus para trazer vida, paz e esperança para corações despedaçados.

Se ainda há em nossos corações o amor que pelo Espírito foi derramado, honremos a Deus agindo como Jesus. Tendo compaixão, chorando como os que choram e orando para que haja consolo após tão grande tragédia.


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