Semeando Esperança


14/10/2012 – A lei, a vida e a morte
14/10/2012, 1:50 pm
Filed under: Semanal

Esta semana, uma menina no Paquistão que reivindicava o estudo para as meninas foi baleada por um homem vinculado ao Talibã, alegando que o comportamento dela ia contra a Sharia (lei islâmica) por promover o secularismo e ir contra os “militantes” do islã. Por isso, ela tinha que morrer. A menina está no hospital se recuperando e já está recebendo novas ameaças de morte, informando que, se ela sobreviver, eles irão tentar matá-la de novo. (Clique aqui para ler a notícia)

A mídia e as manifestações contrárias a este acontecimento já são divulgadas pelo mundo – clamores populares contra o fundamentalismo religioso e o radicalismo dos extremistas mais uma vez são estampados nos jornais e sites, colocando na berlinda a questão da religião como algo nocivo, acusando a lei com base na religião como o estopim de todos os conflitos e atitudes reprováveis. O que ocorre é que enquanto no ocidente, nossos estados laicos separam a lei secular da religião, nos países islâmicos, o poder legislativo e a religião acabam sendo a mesma coisa. Não é meu intuito entrar na discussão de certo ou errado sobre esta posição, apenas para mostrar que existe esta distinção.

Mesmo nos casos em que a lei se mistura com a religião, o problema não está na lei. Considerando o nosso cenário em que a lei não se mistura com religião, no ponto de vista humano-secular, a justiça é representada por uma balança segurada por uma mulher vendada – não diferencia ninguém e age de forma igualitária. Pensando pela visão humana, a lei não é boa, nem ruim. Ela apenas é. Há também, porém, a lei divina ou espiritual (Romanos 7:14). Sobre ela, Paulo diz que a lei é santa, justa, boa (Romanos 7:12) e que não é pecado (Romanos 7:7) . No versículo 7, ele também diz que para conhecermos o pecado é necessário que haja a lei para nos mostrar em qual atitude há o erro.

Pode-se dizer então, que a lei em si não gera nenhum destes problemas – a questão está na forma em que a lei é usada e interpretada para justificar as ações tomadas. Não sou nenhum conhecedor das leis do Islã, mas sei que quando uma lei diz que “uma pessoa que age contra os guerreiros de Deus deve morrer”, não quer dizer que se deve atirar numa menina porque ela quer estudar. O que importa é o que nos leva a obedecer a lei – não deve ser o medo ou cegueira religiosa, pois estas motivações, como temos visto, apenas trazem uma imagem errada da fé.

Se você leu o texto até este ponto, talvez esteja com uma pergunta na cabeça – qual o intuito desta reflexão? O que quero destacar com estas palavras é que, muitas vezes, dentro de nossas igrejas, temos também “matado” e “atirado” contra outras pessoas – seja com nossas palavras ou atitudes – por acharmos que estamos defendendo a lei de Deus. Cansei de ver jovens sendo isolados do convívio na igreja por terem ido a uma balada ou tomado alguma bebida alcoólica e tendo este comportamento justificado por versículos ou uma doutrina distorcida. O que dizer também das pessoas que são “excluídas” por terem cortado o cabelo, ido à praia, usado roupa de cor chamativa ou maquiagem? Ou até casos mais “leves”, como quando criticamos alguns irmãos que não conseguem vir ao culto ou participar de uma reunião por terem outro compromisso, tratando-os como ‘menos crentes’?

Até que ponto a nossa interpretação da lei está nos tornando cegos para qual é a real missão do evangelho?
Até quando esta escolha seletiva de versos soltos na Bíblia será justificativa para as atitudes que são claramente anti-bíblicas?

A primeira coisa que temos que lembrar é que ao contrário da lei humana em que há “poderes instituídos” para assegurar que a lei seja cumprida, para a lei divina, esta cobrança é individual. Cada pessoa é responsável por suas ações e pelas atitudes. Lá em II Tessalonicenses 5:22-23, Paulo diz que nós temos que “examinar tudo, reter o que é bom e nos abster daquilo que é mal.” Ou seja, é nosso papel analisar as situações e oportunidades que são apresentadas a nós e guardar aquilo que é bom, considerando a perspectiva divina. Não é um pastor ou um líder espiritual que deve impedir ou obrigar que você faça estas coisas – nem usar de formas de coerção para que você faça o que é certo. Esta obrigação é individual, como vemos escrito em Romanos 14:12, “cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus”. O objetivo da liderança das igrejas não é acusar ou julgar os fiéis, mas sim ensinar, instruir e corrigir para que cada um possa aprender a seguir a Deus de forma correta.

O objetivo da lei não é criar uma “elite santa” dentro das igrejas. Esta postura de superioridade que leva uma pessoa se achar no direito de julgar a outra, colocando-se como “porteiros do céus”, decidindo “quem sobe e quem fica”. Prefiro seguir o que está escrito em Romanos 14:13: “deixemos de julgar uns aos outros. Em vez disso, façamos o propósito de não colocar pedra de tropeço ou obstáculo no caminho do irmão.” O objetivo da lei divina é nos aproximar, indicando que somos iguais na presença de Deus. Mas a influência humana faz com que ela seja deturpada, até o ponto de ser usada para justificar crimes, como vemos através da história da humanidade. O ensinamento de Deus nos dá a perspectiva de nos colocarmos no lugar da outra pessoa, sabendo perdoar e aprendendo como de fato devemos amar.

Antes de ser acusado de “liberalista” ou infiel, quero deixar claro que eu não sou contra a lei. Não acredito de forma alguma que uma anarquia ou ausência de regras é a saída para nos tornamos livres. Quando aprendemos o verdadeiro intuito que a lei de Deus estabelece, aprendemos que obedecer é uma escolha.

Só obedece quem conhece a lei, só conhece a lei que busca a palavra, só busca a palavra quem quer conhecer a Deus e só conhece a Deus quem O ama.

Pensando desta forma, entendemos que cumprir a lei deve ser feita com base no amor “fraternal e não fingido” (I Pedro 1:22), confirmando o que foi dito por Paulo em Gálatas 5:14 – “Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.” Quando a lei é cumprida por mero compromisso religioso ou por obrigação, ela perde o seu propósito principal. Para mostrar que o cumprimento da lei deve ser regido pelo amor, vou destacar duas histórias que vemos na Bíblia, uma em que a lei é obedecida, mesmo quando “não necessário” e uma em que ela é desobedecida, mesmo indo contra “o que está escrito”.

O primeiro caso é relatado em Romanos 14 por Paulo e algo parecido havia acontecido com Pedro em Atos 10. Havia uma grande discussão sobre quais tipos de alimentos podiam ser comidos, com conflitos entre os judeus que se apoiavam na lei mosaica e os gentios que tinham outros costumes. Paulo é categórico na sua afirmação no versículo 14: “Como alguém que está no Senhor Jesus, tenho plena convicção de que nenhum alimento é por si mesmo impuro, a não ser para quem assim o considere; para ele é impuro.” Ou seja, não há alimento impuro, a não ser aquilo que você mesmo considera impuro. Trata-se de algo pessoal, como vemos lá no versículo 22: “A fé que tens, guarda-a pra você mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova.” Por essa perspectiva, não há obrigação alguma em obedecer esta lei. Porém, continuando a leitura nos versículos 15 e 16, vemos o seguinte: “Se o seu irmão se entristece devido ao que você come, você já não está agindo por amor. Por causa da sua comida, não destrua seu irmão, por quem Cristo morreu. Aquilo que é bom para vocês não se torne objeto de maledicência.” Ou seja, ele diz para as pessoas que, por amor, você deve optar por obedecer a lei para que isso não faça mal para outra pessoa! No versículo 21, ele confirma dizendo que “é melhor não comer carne nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa que leve seu irmão a cair”. Por amor aos nossos irmãos, optamos por abrir mão de certas coisas para que eles permaneçam firmes. A obediência à lei faz com que o corpo se fortaleça.

O segundo caso é um relato feito em II Crônicas 30, em que o povo de Israel após ficar um tempo distante de Deus, passa por uma reviravolta de arrependimento. Um novo rei (Ezequias) percebe o erro do povo ao abandonar a lei divina e começa a alterar radicalmente o cenário de vida – quebrando altares dos outros deuses, renovando a cidade, reconstruindo o templo, preparando líderes e tudo o mais. O rei manda cartas e mensageiros por toda nação, chamando o povo para se converter e para se reunir em Jerusalém para celebrar a Páscoa conforme estava escrito no livro da lei. Por se tratar de algo feito “às pressas” e considerando o tamanho da nação, o rei e os sacerdotes tiveram alguns problemas. O primeiro, relatado em II Crônicas 30:3: “Porquanto não a puderam celebrar no tempo próprio, porque não se tinham santificado sacerdotes em número suficiente, e o povo não se tinha ajuntado em Jerusalém.” Não haviam pessoas preparadas o bastante e o povo não tinha conseguido viajar a tempo de celebrar a Páscoa no dia em que foi estabelecida (na segunda semana do primeiro mês). Além disso, o povo chegava para celebrar, mas não tinham passado pelo ritual de purificação que está escrito na lei de Israel, como vimos no versículo 18: “Porque uma multidão do povo, muitos de Efraim e Manassés, Issacar e Zebulom, não se tinham purificado, e contudo comeram a páscoa, mas não como está na lei”. Os sacerdotes poderiam impedí-los de participar com base na lei, mas o que me chama a atenção foi a atitude do rei Ezequias, escrita nos versículos 19-20: “Porém Ezequias orou por eles, dizendo: O SENHOR, que é bom, perdoa todo aquele que tem preparado o seu coração para buscar ao SENHOR Deus, o Deus de seus pais, ainda que não esteja purificado segundo a purificação do santuário. E ouviu o SENHOR a Ezequias, e sarou o povo.” Não é à toa que a Bíblia relata que Ezequias foi um rei com o mesmo compromisso que Davi – ele entendia o que o coração de Deus queria!

Quando eu leio essa passagem, eu lembro sempre daquele hino que sempre cantávamos na igreja quando era pequeno:

“Eu venho como estou
Eu venho como estou
Porque Jesus por mim morreu
Eu venho como estou”

O povo se reuniu com coração disposto e anseio por se aproximar de Deus. Eles não obedeceram a lei, eles não estavam conforme as regras escritas. Mas “Deus ouviu e SAROU o povo”. Se isto não é um sinal claro de que não devemos impedir a comunhão das pessoas com Cristo por motivos externos ou aparentes, não sei o que seria um motivo aceitável. Muitas vezes nos cegamos pela lei e fechamos as portas da comunhão para os nossos irmãos.

Quando optamos por obedecer, por temor e amor a Deus, colocamos em prática um dos fundamentos da nossa fé. Que possamos aprender a seguir a lei divina com a motivação correta, porque desta forma nossas atitudes serão não apenas corretas, mas também serão transformadoras.


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