Semeando Esperança


05/10/2012 – Crer ou não crer?
05/10/2012, 1:19 pm
Filed under: Semanal

A vida cristã é repleta de parcerias divino-humanas, visto que o nosso modelo de fé é Jesus que “mesmo sendo Deus, se fez homem” (Filipenses 2:7-8). Uma das parcerias principais e também uma das principais características que destacam o cristianismo dentre as outras religiões é a diretriz do evangelismo – espalhar a fé para outras pessoas, sendo semeadores da mensagem (Mateus 13:18) e embaixadores do Reino de Deus (II Coríntios 5:20).

Seja por falta de compreensão ou por uso impróprio por parte de lideranças e governos, esta característica única do Cristianismo de “espalhar a mensagem” gerou também o proselitismo e a postura impositiva de alguns cristãos. Enquanto o proselitismo é algo mais presente no cenário contemporâneo, a postura impositiva se estende desde as Cruzadas da Igreja Católica na Idade Média até os evangélicos que obrigam seus amigos e colegas a engolirem a mensagem do evangelho com ameaças de inferno e sofrimento eterno. Fui criado em igreja evangélica e presenciei profusamente estas duas atitudes por irmãos na fé e me entristeço muito por ver o evangelho manchado por vaidades humanas.

O versículo que me levou a escrever esta reflexão se encontra em Atos 28:24, quando Paulo relata que após pregar o evangelho, “alguns criam no que se dizia; mas outros não criam.” Pode-se afirmar que Paulo foi o maior evangelista que já existiu, sendo exemplo para muitos até os dias de hoje. Sendo uma autoridade nesta área, ele deixou clara a compreensão dele de que algumas pessoas iriam crer na mensagem e outras não. A reação a esta compreensão e a forma como agimos quando a alcançamos é aquilo que separa os que seguem a Cristo dos que seguem uma religião.

Para nos aprofundarmos nesta compreensão, dividi a reflexão em duas partes: a) Papel do Cristão, em que falo um pouco sobre a nossa responsabilidade em relação a espalhar a mensagem para os que (ainda) não crêem e; b) Base do êxito, em que destaco alguns pontos principais para que possamos cumprir esta responsabilidade sem que haja expectativas equivocadas, atitudes nocivas e frustrações constantes.

A) Papel do Cristão

Algumas atitudes devem ser contínuas no viver do cristão, sendo realizadas ininterruptamente. Podemos destacar “orar sem cessar” (I Tessalonicenses 5:17) e “amar as pessoas, mesmo os que não crêem, da mesma forma como Deus amou” (João 3:16) – estes pontos já foram destacados nos textos sobre os “Fundamentos da Fé”, aqui e aqui. Além disso, vemos também a importância da postura e do modo de vida do cristão em relação aos que não crêem em I Pedro 2:12: “Vivam entre os que não crêem de maneira exemplar para que, naquilo em que eles os acusam de praticarem o mal, observem as boas obras que vocês praticam e glorifiquem a Deus no dia da sua intervenção.” Vivermos de forma correta é uma forma de fazer com os que não crêem se aproximem de Deus.

Considerando a temática desta reflexão, quero destacar com mais afinco uma das responsabilidades que todos os cristãos possuem: a responsabilidade de evangelizar, como destacado no início do texto. A Bíblia comprova esta responsabilidade em Marcos 16:15, quando o apóstolo confirma que uma das ordenanças de Cristo é que devemos “ir e pregar o evangelho a toda criatura”. Também em Romanos 10:18, o autor nos relata que “por toda a terra saiu a voz deles, e as palavras de Deus até aos confins do mundo.”

Pregar o evangelho não deve se limitar aos templos e congregações – aliás, bem pelo contrário, visto que a ordenança de Cristo diz “Vá e pregue” e não “abra a porta da igreja, espere alguém entrar e pregue”. Se o evangelho fosse para ser pregado apenas ’em casa’, ele não seria as “sandálias” da armadura de Deus (Efésios 6:15), ou seja, é para usar (e nos guiar) nas caminhadas, lembrando que o evangelho é o “poder de Deus para a salvação” (Romanos 1:16).

B) Base do êxito

Como vimos no item acima, pregar o evangelho é uma responsabilidade de cada um dos que creem em Cristo. é nosso papel espalhar as boas novas para os que não conhecem. Porém, como destacado no início do texto, isto deve ser feito com sabedoria e temor para que não caiamos no erro de adotar uma postura impositiva ou de criar expectativas irreais. Considerando a experiência de vida e a observação histórica da igreja, destaquei três pontos que temos que compreender e integrar à nossa vida, nos ajudando a alcançar o objetivo de cumprir a nossa responsabilidade de evangelizar:

1) “Ide e pregai” não significa “desrespeitai e obrigai”

Acusações, agressões, impor suas regras (às vezes, até com uso de violência física), perseguições e declarações públicas de ódio e repúdio. Lendo isto, parece que estou falando de algum governo totalitário, porém estou mencionando algumas das atitudes da igreja no decorrer da história até os dias de hoje. Há um versículo da carta de Paulo a Timóteo em que, ao meu ver, encontra-se expressa a percepção do cristão que realmente entende a necessidade de evangelizar. Está escrito em I Timóteo 1:15 que “o ensinamento verdadeiro, que deve ser crido e aceito de todo coração é este: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior.”

Esta passagem mostra a compreensão que temos que ter da nossa mensagem – Cristo veio para salvar, inclusive (e principalmente) dos que estão pregando. No momento que o cristão se reconhece como “o pior dentre os pecadores” e que possui a necessidade incontestável da graça e do amor de Deus, ele percebe que não pode em hipótese alguma usar sua boca e sua fé para acusar ou se colocar em um “pedestal de santidade”. Aprendemos a falar de Cristo com reverência e respeito, trazendo união e não dissensão, compreensão e não intriga, respeito e não indignação.

2) Quem convence é o Espírito de Deus

Em Zacarias 4:6 está escrito que o nosso objetivo não é alcançado “não por força, nem por violência, mas pelo Espírito de Deus”. Não cabe ao ser humano declarar qual pessoa é ou não salva, é ou não cristã, tem ou não fé. Da mesma forma, não se pode forçar uma pessoa a crer ou convencê-la com argumentos humanos ou força excessiva. 

Mesmo para os mais eloqüentes que são capazes de convencer as pessoas com a desenvoltura de suas palavras, não há como haver real conversão ou mudança apenas por argumentos humanos. Quando isto ocorre, a pessoa passa a ter como referencial de fé a pessoa que falou e não a mensagem de Cristo – não é preciso dizer que esta é uma das maiores causas de sofrimento que há nas igrejas de hoje, a desilusão com os líderes, como mencionei no texto sobre A Igreja e a Sociedade.

O Espírito Santo de Deus age como o intermediador da mensagem, usando nossas vidas para passar a mensagem correta na hora certa. Como Jesus disse em Lucas 12:11-12, “não estejais solícitos de como ou do que haveis de responder, nem do que haveis de dizer. Porque na mesma hora vos ensinará o Espírito Santo o que vos convenha falar.” Vemos exemplos desta clareza do Espírito quando Estevão fala perante a multidão ou quando Paulo se apresenta ante a corte de Cesar. Em João 14:26, Vemos que além de nos guiar nas palavras, o Espírito Santo também “nos ensinará todas as coisas, e nos fará lembrar de tudo quanto Cristo disse.” Não se trata apenas de conhecer a palavra, não se trata apenas de saber falar bem – da mesma forma como uma corrente se graxa não roda, a pregação sem o Espírito não convence.

3) Vasos para glória, vasos para perdição

Em Romanos 9:22-23, são mencionados que Deus preparou tanto vasos de misericórdia quanto vasos para perdição. Também em Salmos 75:7, vemos que ” Deus é o Juiz: a um abate, e a outro exalta.”  Isto nos evidencia que mesmo que a vontade de Deus é que nenhum se perca, há alguns que não crerão na mensagem. Trata-se de uma questão difícil, pois muita vezes não conseguimos entender o motivo de pessoas que “nascem apenas para sofrer ou se perderem”. O fato é que temos que ter na consciência o fato de que alguns não ouvirão a mensagem, para que não nos afundemos em depressão ou tristeza pela expectativa frustrada de “ganhar todo mundo ou o mundo todo”.

O profundo pesar de Paulo ao perceber que a mensagem não era ouvida pelos judeus (Atos 28:25-29) e também relação aos irmãos que se perderam do evangelho são demonstrações de que mesmo entendendo que há almas que não serão salvas, isto não quer dizer que deve diminuir a nossa tristeza ou impedir que nosso coração se mova em compaixão pelos que estão pedidos. Um dos traços que indicam que o caráter de Cristo está sendo formado em nós é que nosso coração se move ao vermos os que estão perdidos, como o coração de Jesus se moveu (Mateus 14:14).

Nós não sabemos quem são as pessoas que aceitarão a mensagem do evangelho, não sabemos quais irão acreditar em Jesus, portanto nosso papel é pregar o evangelho “sem acepção de pessoas” (Romanos 2:11), seguindo o conselho que Paulo deu em II Timóteo 4:2, encorajando-nos a “pregar a palavra, instar a tempo e fora de tempo, repreender, exortar, com toda a paciência e doutrina”.


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