Semeando Esperança


06/09/2012 – Personalidade e Presença
06/09/2012, 7:29 pm
Filed under: Semanal

Comecei o texto ‘Fugindo do foco‘ com a seguinte frase: “O objetivo do cristianismo é a unidade e não a uniformidade, porque Deus aprecia as nossas diferenças e entende que isso é essencial para a saúde da igreja e da sociedade.” O que quero dizer com isso é que temos que entender a diferença entre unidade e uniformidade. Enquanto a uniformidade se refere à padronização e equalização de todos os fatores, fazendo com que se transformem na mesma coisa, a unidade é a coesão e interação entre fatores diferentes, levando à algo maior e mais complexo.

Esta compreensão de que a integração das diferenças e a conexão entre o humano e o divino são vistas em praticamente todas as religiões que existem, porém há uma questão diferente no cristianismo – enquanto há a busca pelo divino por parte do humano é iniciada por um esforço em uma via, ou seja, o homem procurando algo maior, no cristianismo vemos a reversão desta iniciativa. “Não fostes vós que escolhestes a mim, mas eu que escolhi a vós” (João 15:16). O objetivo dessa reflexão é mostrar dois aspectos de Cristo, com base nas perspectivas expostas acima: 1) a aproximação com o fator humano, PRESENÇA e; 2) reconhecimento divino da individualidade humana, PERSONALIDADE.

1) Presença

Vemos na base das religiões sempre uma ligação entre o humano e divino. Quase na totalidade delas há ou a elevação espiritual de um homem, se tornando “divino” ou então a divindade que vem para a terra e é manifesta em sua forma plena, iluminando os homens como um ser superior.

Quando mencionei acima que, em Cristo, ocorre a aproximação do fator humano, é que não se trata de um homem iluminado ou de uma divindade incrível, mas sim de algo que anda no inverso da tendência religiosa. Vamos ver em quais aspectos a presença de Cristo nos faz sermos mais próximos de Deus:

a) Andava com pecadores (Mateus 9:10 e Mateus 11:19)

Este é um tópico que sempre gera discussão no meio cristão/religioso – o Salmo 1 nos ensina a não nos sentar na mesa dos escarnecedores e Jesus sentava com publicanos e pecadores. Acho que o ponto chave nisto, que é o que temos que usar como base para sermos mais como Deus, é que Ele andava com pecadores, mas não era um pecador. Ao contrário, Ele atraía os pecadores para se tornarem santos.

A maioria das religiões prega uma postura isolacionista dos homens que se tornaram “divinos” e uma postura abastada e dominante dos “deuses que vieram pra terra”. Cristo, com seu exemplo e vida, nos revela: i) a nossa fragilidade e dependência, a fraqueza humana e a importância da comunhão com Deus e não “se tornar Deus” e; ii) que Deus se aproxima do homem para melhorá-lo de forma prática e realista, não com atuações e sacrifícios impossíveis. Como está escrito em I Samuel 15:22, “quero obediência e corações dispostos, não sacrifícios”.

b) Abriu mão da divindade (Filipenses 2:6-9)

Outra característica das religiões é que vemos a importância da separação entre as figuras divinas para com os homens normais, com uma forma de manter a sua divindade intacta. Os líderes religiosos (até hoje, infelizmente) fazem de tudo para se tornarem intocáveis, como homens santos e infalíveis – ou seja, tornando-se “deuses entre homens”. Vemos que nisto, Cristo também foi no caminho inverso – ele abriu mão de sua divindade, da sua “glória e poder”, e tornou-se um reles humano, morando em uma cidade pequena, fora do foco e da fama, exercendo uma função simples. Ele agiu de forma divina, porém em forma e com as limitações humanas, nos dando um exemplo real.

c) Viveu e morreu

Não apenas viveu e morreu, mas viveu e morreu como um ser humano. Muitos enxergam o sacrifício de Cristo apenas como a sua morte na cruz – porém nos esquecemos que Ele viveu por 33 anos, sendo Deus porém se fazendo homem e padecendo os mesmos problemas e dores que nós passamos (Isaías 53:3). Teve que trabalhar, foi questionado por sua família e amigos, foi traído, abandonado, foi incompreendido. Todavia, não podemos esquecer que Ele também amou, teve amigos, foi respeitado e seguido. Por ter vivido não apenas entre nós, mas como um de nós, que Ele tem a capacidade de reconhecer em cada um de nós nossas virtudes e vícios, nossos altos e baixo – por fim, nossa individualidade.

2) Personalidade

Como mencionei no tópico anterior, uma das principais características do cristianismo é que há não apenas o respeito pela individualidade, mas o conhecimento e reconhecimento por parte de Deus das nossa singularidade humana. Conforme mencionado no primeiro parágrafo, o objetivo do cristianismo não é criar uma massa de pessoas que pensam, agem e se vestem iguais, como robôs que repetem o que um líder diz. Quem está do lado de fora muitas vezes não consegue enxergar dessa forma – entendem que é “mentalidade de ovelha”, que “não pensamos por conta própria”.

Se pensarmos que o pastor é Cristo e nós somos as ovelhas, talvez quem está do lado de fora não consiga mesmo ver a diferença entre as ovelhas e acabe achando que todas são iguais. Mas, quando se está no dia a dia, as “ovelhas” reconhecem as suas diferenças e o mais importante, o pastor conhece cada uma das ovelhas e trata cada uma conforme estas diferenças.

Na Bíblia, vemos diversos exemplos em que Jesus se direcionou especificamente a uma pessoa ou outra, mesmo em casos em que estavam no meio da multidão. Vemos o caso de Zaqueu (Lucas 19) em que ele é chamado por Jesus pelo nome para descer da árvore e jantar juntos. O mesmo acontece com a mulher com fluxo de sangue (Marcos 5:25-34) , o cego de Jericó (Marcos 10:46-52) e o homem da mão mirrada (Marcos 3:3) – Jesus para a multidão para dar a atenção para a “diferença da ovelha”. Há também os casos em que Jesus destaca essa diferença para revelar sua divindade e mostrar que se importa conosco – Natanael (João 1:48) que foi convencido quando Jesus revelou que “ele estava embaixo da figueira”, Maria Madalena que estava à frente do túmulo e reconheceu a Jesus quando Ele a chamou pelo nome (João 20:16) e Pedro que, quando Jesus voltou dos mortos, chamou a todos os seus seguidores, porém mencionou o de Pedro separadamente, dando a importância para o que estava entristecido (Marcos 16:7).

Nosso papel, como cristãos, é o de seguirmos a Jesus e permitirmos que nosso caráter e modo de vida sejam mudados e moldados conforme o exemplo dEle. Dentre os passos a serem dados, estão i) reconhecer que somos um “trabalho em andamento”, aceitar a nossa humanidade e usá-la como força para que isso nos torne mais humildes e; ii) compreender e respeitar as diferenças, fazendo com que isso nos torne mais unidos, fazendo com que o corpo de Cristo seja mais unido e saudável. Que Deus possa criar no nosso coração o desejo de vivermos em união, para que o mundo reconheça que somos filhos dEle (I João 3:4).


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