Semeando Esperança


03/08/2012 – Igreja e sociedade – O mal do isolamento e a necessidade de mudança
03/08/2012, 7:11 pm
Filed under: Semanal
Um dos meus planos para 2012-2013 é o de fazer um mestrado na área de política internacional. Para isto, comecei a ler alguns livros referentes à formação e evolução das sociedades ao redor do mundo, considerando diversos fatores. As sociedades mais fortes e dominantes do mundo são aquelas que conseguiram desenvolver melhores tecnologias e conhecimento, impondo a sua estrutura sobre sociedades mais fracas. Um dos principais fatores que determinaram este fortalecimento destas comunidades foi a proximidade de outros povoados. Isto normalmente levava à construção de estruturas mais fortes e capazes de se desenvolver melhor. Por exemplo, se uma pessoa estiver sozinha, ela tem que procurar alimento para sobreviver enquanto em um pequeno grupo, uma pode procurar alimento enquanto outra desenvolve outras coisas (cultivo de alimentos, domesticação de animais, etc), fazendo com que a sobrevivência se torne mais provável.

Resumindo: as sociedades que se relacionavam cresceram e as que se isolavam desapareceram. Agora, qual a importância destes fatores para compreensão do que acontece nas nossas igrejas hoje? Quero abordar esta questão em três tópicos distintos: Individualismo, Isolamento e Ostracismo. Mas antes disso, vamos ver qual o cenário da igreja atual.

Enquanto na formação dos povos/governos no mundo, o processo ocorrido foi de ostracismo -> isolamento -> individualismo -> sociedade (estrutural) -> sociedade (orgânica), o que tem ocorrido hoje é o processo reverso. Isto, infelizmente, tem também influenciado nossas igrejas. Partimos da máxima de que a Igreja é o corpo de Cristo, vivendo em união para atingir os objetivos que são propostos por Ele. Desta forma, a igreja é uma sociedade orgânica, interagindo em todos os aspectos, trabalhando em conjunto com “uma mente e um coração”. Com o passar do tempo, algumas igrejas se tornaram instrumentos de manipulação política ou de coerção popular. Outras criaram estruturas tão burocráticas que não perdem em nada para os governos seculares. O que era uma sociedade orgânica, tornou-se uma sociedade estrutural (primeiro passo pra trás), colocando pessoas que se interligam apenas pelo dever ou obrigações, acreditando no bem coletivo. O processo porém não parou por aí. Neste sentido, o segundo passo pra trás ocorre e o primeiro fator que quero destacar aparece: o Individualismo.

O individualismo ocorre em qualquer sociedade atual, considerando que temos uma base econômica capitalista. Cada um com seu espaço próprio, com seu trabalho, sua vida, sua casa, buscando seus objetivos pessoais e assim por diante. Mesmo vivendo em sociedade e com uma proximidade geográfica/física, aos poucos as pessoas começam a se tornar unidades distintas em um todo, exercendo apenas funções sociais ou invés de ocorrer uma integração completa com os outros participantes. Qualquer um que trabalha aqui sabe que é desta forma que ocorre: no ambiente de trabalho, você se torna apenas um cargo, eliminando em um terço do seu dia mais da metade da sua pessoalidade.

Enquanto isto ocorre de forma frequente no cenário contemporâneo, se considerarmos a sociedade como um organismo, esta primeira etapa já se caracteriza como sinal de alerta. Se a comunicação e integração entre as partes começam a se tornar inexistentes ou incompletas, é um sinal de que o corpo está ficando doente. Por exemplo, se o sangue não consegue fluir por um canal obstruído (causando trombose ou a necessidade de pontes de safena) ou se os impulsos nervosos não vão do cérebro até uma das extremidades (paralisia, doenças degenerativas).

 

O surgimento dos individualismos em nossas igrejas é o sinal de que a igreja está deixando de ser o corpo de Cristo para se tornar um grupo de homens. Desta forma, a morte do corpo se torna iminente.

Quando os individualistas se reúnem no mesmo templo/sociedade, a tendência é de formação de pequenos grupos que possuem pontos de vista parecidos. Quando estes grupos menores são formados, dá-se início ao terceiro passo do retrocesso, o segundo ponto que quero abordar neste texto – o isolamento. O isolamento se dá quando pequenos grupos optam por se unirem e se desligarem da sociedade em que estão inseridas. Ocorre não apenas um distanciamento de idéias, mas também uma separação física/geográfica. os efeitos desta separação para a sociedade original podem ir desde o enfraquecimento (diminuir o contingente de pessoas, perda de pessoas que exerciam funções importantes) até o declínio e destruição (gerando conflitos internos que exigem uma reestruturação social completa). Para o grupo que se separa, caso não haja a busca por uma estruturação em uma nova sociedade, o resultado acaba por ser a destruição (pessoas não preparadas para encarar a vida fora da realidade original).

Pela perspectiva da igreja, este isolamento pode criar os mesmos sintomas para o grupo original – enfraquecimento ou até a morte do corpo. Quem lê este texto e tem mais de 10-15 anos de igreja, já deve ter passado por uma ou mais “separações” de ministério. Pequenos grupos dentro de uma igreja que, geralmente liderada por um dos pastores da igreja, decidem por saírem e abrirem outra igreja. Neste caso, há a separação do grupo inicial para a criação de um grupo novo, com as mesmas bases estruturais. Enquanto para o mundo, esta separação pode ser produtiva, para a igreja, é quase sempre destrutiva.

Veja bem, não sou contra a mudança de ministério (eu mesmo já mudei duas vezes). Da mesma forma, não sou contra estes rompimentos de igrejas em si, pois alguns ocorrem de forma natural – caso não ocorressem, hoje não haveria a igreja anglicana, protestante, evangélica e assim por diante. Todavia, sou contra qualquer fator que

gere desunião – infelizmente, a maioria das igrejas não sabem manter a união do corpo mesmo estando em templos ou seguindo doutrinas diferentes, quase sempre gerando picuinhas, intrigas, competitividade, brigas e assim por diante.

Quando o grupo que se isola não busca se tornar novamente uma sociedade, a tendência é que este grupo acabe se desfazendo – seja porque é atacado e destruído por outro povo, seja absorvido por um outro grupo maior ou apenas ocorra a separação de seus componentes, gerando aí não apenas uma separação de idéias e física/geográfica do grupo menor, mas um isolamento completo, sendo o último passo pra trás que pode ser dado e o último tópico que quero abordar: o ostracismo.

O ostracismo nada mais é que o isolamento total do indivíduo, não havendo contato algum com outras pessoas, muito menos com uma sociedade. Considerando que vivemos em um mundo globalizado, com satélites e câmeras em todos os lados, este cenário se torna muito improvável – desconsiderando as histórias do Mogli, do Tarzan e do Tom Hanks no filme ‘O Náufrago’. Considerando a máxima de Aristóteles de que “o homem é um animal social”, a vida completamente isolado se torna praticamente inviável. Há aquela questão filosófica: “se uma árvore cai no meio da floresta e ninguém vê ou ouve, ela realmente caiu?”. Trazendo para essa reflexão, “se um homem vive isolado de tudo e de todos e nunca ninguém o vê ou ouve, ele realmente viveu?” Este cenário resulta na morte tanto do ser humano que vive só quanto no cristão que se isola totalmente da igreja.

O cristão-ostra é aquele que por algum motivo, seja teimosia ou por ter sido ferido em uma igreja, opta por se isolar da vida na igreja, sobrevivendo de seus esforços e conhecimentos. Elias também tentou se isolar uma vez e levou um belo de um puxão de orelha de Deus (I Reis 19). O cristão-ostra deixa de ser cristão porque desrespeita uma ordenança básica de Deus: que os irmãos devem viver em união (Salmo 133:1). Recentemente, um censo realizado no Brasil indicou um número alarmante de “evangélicos não praticantes”. Da mesma forma que um “atleta não praticante” não é um atleta (eu sou um destes), qualquer um que professa uma fé e não pratica, não é um representante dela – já disse Tiago, “a fé sem obras é morta” (Tiago 2:20). Quem busca seus próprios interesses, não pode buscar os interesses de Deus (Provérbios 18:1).

Quero concluir esta reflexão com duas mensagens pessoais e uma oração:

1) Se você é cristão e não frequenta mais uma igreja, não estou aqui para julgar o motivo que te levou isto nem minimizar o seu sofrimento; conheço pessoas que tem motivos sólidos para esta decisão. Mas estou aqui para te dizer que esta atitude terá um efeito muito pior em você do que na própria igreja – o corpo de Cristo não deixará de existir. Além disso, quero que se faça uma pergunta: Eu saí da igreja por algo que o homem fez ou por algo que Deus fez? Das pessoas que eu conheço que saíram da igreja, todas tem um motivo que está ligado a uma outra pessoa – o pastor que desrespeitou, um líder de jovens que não deu atenção devida, um líder que roubou seu dinheiro. Em alguns casos, infelizmente, até pessoas que tiveram sua família ou casamento destruídos por negligência ou abusos de líderes. Mas o que Cristo fez por você não mudou: Ele entregou a vida dEle pois para Ele era mais importante ter você como parte do corpo do que escapar da morte. O que Deus fez por você não mudou: Ele te amou te tal forma que permitiu que o filho dEle sofresse e morresse para que tivéssemos a chance de viver com Ele.

A mensagem que eu consigo ver em todos os casos de pessoas que saíram da igreja é: NÃO CONCORDO COM A IGREJA COMO ELA ESTÁ. Isto me leva à segunda mensagem:

2) Se você é cristão e frequenta uma igreja, a responsabilidade por fortalecer o corpo e resgatar os que saíram é sua também. A Bíblia diz que aquele que pode fazer o bem e não o faz, peca (Tiago 4:17). Se a sua atitude tem feito com que pessoas saiam da igreja, se algo que você fez ou disse fez com que uma pessoa se desviasse do caminho, já passou da hora de mudar. Deus cobra de nós cada um que sai do corpo por nossa responsabilidade.

Talvez, assim como acontece comigo, você também tenha em seu coração uma mensagem parecida – que você também não concorda com a igreja como ela está. Igreja no sentido global, não estou falando de uma ou outra denominação. Baseada em interesses, buscando enriquecimento ilícito, manipulando pessoas com questões emocionais ou as tratando como gado, vivendo em ostentação e esquecendo o amor de Cristo. A igreja que fecha as portas para os necessitados e põe cadeiras em seus púlpitos para políticos. Ao invés de ficar reclamando  ou simplesmente saírem, lutem pela nossa fé e por Cristo, lutem pela igreja. Renovem o seu pensamento na palavra (Romanos 12:2), reestruturem a igreja para que ela se torne novamente a casa de Deus. Se somos realmente cristãos, sabemos que não temos alternativa a não ser lutar pelo Reino. Para onde nós iremos, sendo que só Ele tem o que precisamos? (João 6:68) Nesta luta, nossas armas não são carnais, mas poderosas em Deus (II Corintios 10:4) para destruir fortalezas! Inclusive se estas fortalezas são as criadas pela decepção, tristeza e feridas criadas por pessoas que se diziam “homens de Deus”.

Minha oração é que hoje nós possamos buscar a Deus e pedir perdão se temos atuado de forma individualista nas nossas igrejas, ou ainda pior, se temos causado separação ou se temos nos isolado do convívio com os irmãos. Que não haja em nosso coração o desejo de sermos individualistas ou cristãos-ostras, mas sim partes do corpo de Cristo. Pedir a Deus que nos fortaleça na palavra para que possamos criar em nossas igrejas, uma verdadeira comunhão daqueles que são os verdadeiros templos do Espírito de Deus. Que os que possuem compromisso momentâneo ou por interesse com a igreja sejam transformados para terem compromissos reais. Que os que saíram por terem se frustrado, possam ser reunidos como está escrito em Sofonias 3:18. Acima de tudo, que nos corações daqueles que se chamam cristãos, haja o compromisso real de não abrir mão do evangelho por qualquer motivo.

Só abandona a Cristo aquele que não O conheceu de verdade.


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[…] Mesmo para os mais eloqüentes que são capazes de convencer as pessoas com a desenvoltura de suas palavras, não há como haver real conversão ou mudança apenas por argumentos humanos. Quando isto ocorre, a pessoa passa a ter como referencial de fé a pessoa que falou e não a mensagem de Cristo – não é preciso dizer que esta é uma das maiores causas de sofrimento que há nas igrejas de hoje, a desilusão com os líderes, como mencionei no texto sobre A Igreja e a Sociedade. […]

Pingback by 05/10/2012 – Crer ou não crer? « Semeando Esperança




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