Semeando Esperança


23/01/2012 – Igreja orgânica
23/01/2012, 1:58 pm
Filed under: Semanal

Imagine que um dia, você saiu de casa cedo para fazer as compras de Natal. Passou o dia inteiro “batendo perna”, indo pra cima e pra baixo, carregando sacolas sob o sol escaldante de dezembro. Depois ainda teve que pegar o ônibus lotado, ficando em pé o trajeto todo. Quando você finalmente chega em casa, toma um banho e, como era de se esperar, está bem cansado e dolorido. Principalmente os pés.

Acho que todos já passamos por alguma situação parecida. Agora me responda uma coisa: quando você sente aquela dor nos pés, você cuida deles, certo? Deixa de molho, alguns fazem uma massagem, coloca bolsa de gelo e faz alongamento. Até aí, tudo em ordem. Agora, quem depois olha para eles e diz: “Pés, vocês trabalharam muito bem, por este motivo, a partir de amanhã, vocês serão promovidos a pulmões.”? Ninguém faz isso, porque é claro para todos que no corpo cada um tem sua função e importância. Somos um organismo integrado e não uma empresa em que os funcionários podem se mover de cargo em cargo e mudar de departamento.

Parece absurdo promover os pés a pulmões, mas é algo que ocorre com muita freqüência nas nossas igrejas. Isto ocorre porque perdemos a percepção de que a igreja é orgânica, e adotamos uma visão errada, uma visão institucional. A Bíblia é clara – a igreja é o corpo de Cristo. Em nenhum lugar está escrito que a igreja deve ser a “empresa de Cristo” ou “a indústria da fé”. Se é corpo, deve seguir o modelo orgânico, mas isto gera certas restrições que podem acabar impedindo o crescimento da instituição eclesiástica. Tendo isso em mente, decidi comparar quatro conceitos, opondo a visão institucional com a visão orgânica para que possamos identificar alguns dos problemas que enfrentamos nas nossas igrejas.

1) Plano de carreira x Reconhecimento do papel

Quando se entra em uma empresa, normalmente se desenvolve um plano de carreira. Em x anos, virar supervisor, mais alguns anos gerente. Mudança de departamento, treinamentos e etc. Boa parte das pessoas entram em uma empresa e com o tempo, vão assumindo novas funções e até mudam de área. Ficar estagnado em uma mesma função por muitos anos é visto com maus olhos, demonstra uma espécie de falta de interesse e ambição por parte do profissional. Esta visão acabou permeando as igrejas, por isso há um anseio crescente por um reconhecimento humano dentro das igrejas, um desejo cada vez maior de aparecer e ser “famoso”, ser líder, ser cabeça e não cauda. Cria-se uma percepção de que a pessoa que serve como obreiro por vários anos é alguém que não anseia crescimento na igreja.

Que fique claro o seguinte: Não há promoções no reino de Deus.

Cada parte do corpo possui uma função para a qual foi designada – ao reconhecer esta função, a pessoal abraça esta responsabilidade e trabalha com coração disposto e satisfação por estar no local correto, fazendo a vontade de Deus para sua vida dentro do ministério. Mesmo que o pastor possua uma responsabilidade maior em relação à igreja, temos que entender que o pastor não é mais importante que o obreiro, o evangelista ou o diácono. Acredito que este seja um dos problemas que enfrentamos na igreja – as pessoas “promovem” a pessoa para um outro ministério, alegando que o tempo de casa e o compromisso com a função são fatores que obrigam a uma mudança. Muitas vezes, esta mudança não apenas destrói o ministério da pessoa, mas acaba colocando em xeque a sua fé e o crescimento espiritual. Se a sua chamada é para ser evangelista, não tente ser pastor. Se a sua chamada é ser obreiro, não busque o presbitério. Reconheça o seu papel e trabalhe com compromisso para o crescimento do Reino.

2) Meritocracia x Desenvolvimento

Vinculado ao item anterior, verificamos também outro conceito empresarial que tem sido aplicado nas igrejas, o conceito de meritocracia. A pessoa cresce e recebe pelos seus esforços, seus méritos. A meritocracia é que define o bônus que um funcionário irá receber, se ele merece uma promoção ou aumento de salário. Como dito no item anterior, não há promoções no reino de Deus mas, na verdade, há o reconhecimento do seu papel. O reconhecimento e ministério são dados por Deus, não por mérito, mas pela graça. O foco da igreja não é o ser humano, mas sim a busca por Deus. É necessário que fique gravada em nossa mente a frase que João Batista disse em João 3:30: “Convém que Ele cresça e eu diminua”. O mérito, o reconhecimento e a glória são todas para Cristo e não para nós. Nosso papel é desenvolver nosso ministério para que o nome de Cristo seja exaltado.

3) Lucro x Equilíbrio

Para a saúde de uma empresa, é importante que ela consiga gerar lucro – ou seja, que ela consiga arrecadar mais do que ela consegue gastar. Isso é importante para que a empresa possa criar um nome melhor no mercado e atrair mais investidores e acionistas. Quanto mais lucro a empresa tiver, melhor é a sua situação. No corpo, todavia, tudo que consumimos tem como objetivo ser usado para o benefício do próprio corpo, ou seja, deve haver sempre um equilíbrio entre aquilo que ingerimos e aquilo que consumimos. Quando comemos mais que o necessário, engordamos, ficamos com “reservas de gordura” em excesso e o corpo pode ficar doente. Quando comemos menos que o necessário, emagrecemos, o corpo começa a consumir reservas internas, ficamos subnutridos e o corpo pode ficar doente também.

Este é outro conceito que poluiu a estrutura das igrejas – hoje, para algumas pessoas, abrir um templo é visto como um negócio, uma oportunidade de ganhar dinheiro. Arrecadar dinheiro não apenas para usar na obra, mas para construir templos gigantes e comprar canais de TV, se esquecendo de reverter este dinheiro para a edificação da igreja. O templo tem colunas de mármore, mas a pessoa que trabalha com trabalho social tem que andar de ônibus. Lá em Lucas 10:7, Jesus diz que “digno é o obreiro do seu salário”. Na época de Israel, no deserto, os levitas não tinham salário – eles moravam em terreno cedido pelo povo e comiam apenas do que era entregue ao templo. Os tempos mudaram e hoje não há mais como viver desta forma. O diácono que trabalha na igreja dentro da sua função, caso a exerça bem, pode receber um aumento do salário, mesmo que não haja mudança no cargo. Esta é a forma de usar os recursos – equilibrar aquilo que é recebido e aplicar de forma que o corpo se mantenha saudável, investindo nas pessoas ao invés de investir em construções que visam ostentação e não exaltação de Cristo.

4) Estrutura “inchada” x Corpo doente

Em tempos de fusões e compras de outras empresas, a tendência é que a empresa fique não apenas com um tamanho maior, mas que haja cargos repetidos dentro da estrutura. O que ocorre é que eventualmente há uma reestruturação e muitas pessoas são realocadas ou mandadas embora. As pessoas que são demitidas começam a procurar emprego em outras empresas e muitas acabam ficando desempregadas por um tempo. Isto ocorre quando uma empresa procura cegamente o crescimento, sem pensar na estrutura. Neste sentido, algo similar tem acontecido dentro das igrejas – os líderes buscam um crescimento exacerbado, fazendo de tudo para aumentar o seu número de fiéis (muitas vezes até “roubando” de outras igrejas), porém não trabalhando para criar uma estrutura para manter os novos convertidos. No corpo, algo inchado é sinal de doença ou machucado. Significa que o corpo está clamando por cuidado e tratamento.

Muitas empresas entram em falência quando seus funcionários decidem “abandonar o barco” ou ir contra a empresa. Igreja morre quando parte do corpo acaba se virando contra si mesmo – como se fosse um câncer que se desenvolve no meio das congregações. A minha oração é que Deus crie no coração dos líderes um espírito responsável, entendendo que é melhor ter apenas um templo em que se consegue cuidar das pessoas, do que ter dez e ter gente entrando e saindo das igrejas da mesma forma, sem serem cuidadas, amadas e ensinadas.

Casting Crowns – If we are the body (Se nós somos o corpo)


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