Semeando Esperança


07/11/2011 – Simplificando o milagre
07/11/2011, 8:32 pm
Filed under: Semanal

O dicionário Houaiss define milagre da seguinte forma:

“Milagre (substantivo masculino) – 1 ato ou acontecimento fora do comum, inexplicável pelas leis naturais; 2 acontecimento formidável, estupendo ; 3 evento que provoca surpresa e admiração;
4 qualquer indicação da participação divina na vida humana ; 5 indício dessa participação, que se revela especialmente por uma alteração súbita e fora do comum das leis da natureza.”

Como vimos na definição acima, milagre é a indicação da participação de Deus na vida humana que gera uma alteração nas leis naturais. Ou seja, milagre pode ser tanto uma cura divina ou descer fogo dos céus, como também a restauração de uma família causada pela intervenção divina por intermédio da igreja. De uns anos pra cá, temos visto dentro de algumas igrejas evangélicas (principalmente), que houve uma espécie de deturpação do significado de milagre. As pessoas hoje são convidadas a irem a igreja para “buscar o seu milagre”. As pessoas cantam canções que exaltam o milagre como fator imprescindível na vida cristã – “faça o milagre em mim”, “preciso de um milagre”, “o seu milagre vai chegar” e outras mais. Esta ‘banalização’ do milagre é algo grave pois tem transformado os cristãos em verdadeiros mimados e “pidões”, que ficam como as filhas da sanguessugas (Provérbios 30:15) que ficam apenas entrando nos templos para dizem “me dá, me dá”.

Antes de continuar, quero esclarecer apenas dois pontos para evitar que haja confusão:
a) Não é meu objetivo afrontar a fé de ninguém e muito menos de dizer que sou dono da verdade. O que pretendo expor nos próximo parágrafos é uma breve definição do que o milagre significa de fato, com base no estudo da Palavra;
b) Eu acredito em milagre pelo simples fato de que eu acredito em um Deus imutável, que é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hebreus 13:8). Se Ele operou milagres no passado, Ele opera milagres no presente e irá operar milagres no futuro.
Com isso em mente, destaquei três pontos que são importantes para desconstruirmos esta idéia de milagre que vem sido criada, muitas vezes para gerar seguidores enganados com promessas que não expressam a realidade do cristianismo.

1) O milagre não é o cerne da fé em Cristo

Vivemos em uma época em que as pessoas anseiam tanto por algo extraordinário (falei um pouco sobre isso neste outro texto – Vita Brevis, Dura Lex), que as pessoas tem pregado e crido que o milagre é o ponto principal da fé. Tem sido exposto por muitos que se dizem “pastores” e “líderes” que o diferencial de Cristo é que Ele opera milagres, que seguir a Cristo é a certeza de que um milagre irá acontecer na sua vida e tudo irá virar um mar de rosas. Isso tem gerado uma grande quantidade de evangélicos desiludidos que abandonam a fé tão facilmente quanto a abraçaram. O número de evangélicos não-praticantes tem crescido muito porque mesmo tendo a base correta, o ensinamento está cercado de doutrinas e dogmas que poluem a compreensão e a busca do evangelho. (O que ocorre hoje nas igrejas evangélicas é o que ocorreu na católica há uns anos, o que apenas comprova que este é um mal que surge quando o homem toma o lugar de Deus no centro da fé.) Quanto mais aprendemos e vivemos com Cristo, nos tornamos capazes de ver o agir de Deus nas pequenas coisas. Quanto mais nossa fé cresce e é edificada, menor é a vontade de “mover montanhas” – a pessoa que conhece a Deus, sabe que o objetivo da fé não é fazer milagres, mas divulgar o poder de Deus e as boas novas do evangelho.

Como falei no último texto e sempre menciono nos textos que estão aqui no site, o centro da fé é Cristo (Romanos 11:36) – isto significa conhecê-lo, buscá-lo e vivermos com base no seu exemplo e ensinamentos. Para os que buscam a Deus apenas com visão no milagre, quero lembrar o que está escrito lá em Hebreus 11:13 – “todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas”. Temos que crer nas promessas e nos milagres de Deus, mas os nossos olhos devem estar centrados em Cristo.

2) O milagre não é o grito de um Deus carente

Outra vertente que tem aparecido é a do crente que ora: “Deus, faça esse milagre pra mostrar pra eles que você é Deus”. Falam com Deus fazendo uma espécie de chantagem emocional, dizendo que “se não acontecer um milagre, as pessoas não irão crer”. A pessoa que baseia a sua fé em um acontecimento sobrenatural não está seguindo Cristo verdadeiramente – pode até ser que aconteça uma grande mudança, mas no coração e na alma, ela permanecerá sempre sendo uma pessoa que não conhece a verdadeira mensagem de Deus.

Como o pastor Wissam (Casa Firme) sempre diz: “Deus não está em crise ou duvidando de si”. Deus não precisa provar pra ninguém quem Ele é ou que Ele está presente. Há uma inversão grave da ordem neste cenário – a pessoa que ‘ameaça’ a Deus dizendo que não irá mais na igreja ou não irá mais buscá-lo se não receber o milagre, acredita mesmo que a fé está centrada nela. Como o profeta diz em Jeremias 17:5, coitado do homem que põe o centro da sua fé em um homem. Que não deixemos nossa ganância e egoísmo fazer com que busquemos mais os milagres do que a Cristo, fazendo com que nos tornemos uma geração perversa (Lucas 11:29), que pede sinais mas não os recebe. Vale lembrar que o povo de Israel no deserto não foi fiel, mesmo tendo presenciado tantos milagres.

Por fim, quero expor minha definição de milagre:

3) O milagre é uma reação sobrenatural que começa com uma ação natural

Que o milagre é evidenciado de forma sobrenatural é ponto de concordância entre o dicionário, a Bíblia e o bom senso. Mas o que não fica claro nessa definição é que todo milagre tem origem em algo natural, algo simples. Vejo inúmeras denominações que tem inventado receitas mirabolantes para conseguir algo de Deus – tem “pastor” mergulhando em óleo, se jogando na lama, fazendo peregrinações, votos exorbitantes e exigindo sacrifício de tolo, afirmando que é preciso que nós façamos algo drástico, que façamos sempre “a mais” porque a reação de Deus será proporcional à nossa ação. Vamos ver o que está escrito em Romanos 11:34-35: “Quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Quem lhe deu primeiro a ele, para que seja recompensado?”. Deus julga o coração (Jeremias 17:10) e é justamente por isso que Ele sabe que não há, na nossa condição humana, a força ou capacidade de fazermos algo sobrenatural. Por isso que a (re)ação divina, ou o milagre, tem seu início em algo natural. Vejamos alguns exemplos:

– Davi derrotou Golias (e todo um exército) usando apenas uma pedra (I Samuel 17:49);
– Os muros de Jericó começaram a ruir apenas com os gritos do povo de Israel (Josué 6) ;
– Gideão derrotou os midianitas usando tochas, trombetas e panelas vazias (Juízes 6);
– Jesus alimentou uma multidão usando os pães e peixes trazidos por um menino (Mateus 14:15-20);
– O mar se abriu perante Moisés e para isso foi usado um cajado de madeira (Êxodo 14:21);
– Elias fendeu o rio para passar usando a sua capa (II Reis 2:8);
– Um homem foi ressuscitado quando foi lançado sobre os ossos de Eliseu (II Reis 13:21);
– Jesus misturou terra com saliva e passou este lodo nos olhos do cego para curá-lo (João 9:6).

Uma capa lançada, um cajado erguido, panelas reunidas, instrumentos musicais tocados, pedras lançadas, ossos jogados, lama colocada – ações naturais que trouxeram a ação sobrenatural de Deus.

A minha oração é que fique claro em nossas mentes que o milagre de Deus irá ser operado quando começarmos a ver na nossa humanidade, a simplicidade do agir de Deus. Que seguindo a Deus, as nossas ações naturais irão gerar frutos sobrenaturais para que o nome de Cristo seja exaltado.


3 Comments so far
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[…] a nossa ação natural capaz de gerar resultados sobrenaturais. Falei um pouco sobre isso no texto “Simplificando o milagre”. O milagre é justamente o resultado que excede o limite do natural, porém originado em uma […]

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