Semeando Esperança


30/08/2010 – Não é Cristianismo
30/08/2010, 1:03 pm
Filed under: Semanal

No passar do tempo, os cristãos já tiveram inúmeras denominações. Durante vários séculos após o advento do cristianismo, ser cristão era ser católico. Em meados do século 16, com Lutero e Calvino, surgiu o protestantismo (e suas várias vertentes). Considerando a expansão do protestantismo no Brasil, tendo como início meados do século 19, os termos principais usados para denominar os protestantes foram três: os “Bíblias”, os crentes e os evangélicos. O primeiro termo, obviamente, deve-se ao fato de sempre levarem a Bíblia embaixo dos braços para onde quer que fossem. Quase ao mesmo tempo, o termo ‘crente’ começou a ser usado – muitas vezes de forma pejorativa. Surgindo nos anos 50 e ganhando força no início da década de 90, com o movimento neopentecostal e a “renovação” da igreja, o termo evangélico começou a se disseminar. Hoje, ser evangélico se tornou uma moda, uma status de diferenciação. Há atletas de Cristo, atores de Cristo (até alguns que se dizem cristãos e fazem filmes pornográficos), um crescente mercado fonográfico com várias vertentes, danças, passeatas, marchas pra Cristo e muito mais. Ao mesmo tempo, houve também uma mudança na igreja católica, o surgimento do movimento carismático, padres “pop”, restauração e renovo de trabalhos com jovens e mais.

Essa imagem conceitual, o rótulo que existe hoje se tornou algo tão contundente que, quer seja evangélico ou católico, perdeu-se a real base do que realmente significa ser cristão. Antes, nas igrejas, o ser cristão era muitas vezes limitado ou impedido pelas próprias doutrinas e dogmas que foram impostas pela religiosidade de homens. Hoje, essa limitação é feita pela própria cegueira ou negligência dos que se auto-intitulam cristãos.

No decorrer da história, desde o início da igreja logo após a ressureição e ascensão de Cristo, foram diversos os exemplos de vida e fé cristã – estes são os que excederam as barreiras de suas próprias igrejas e denominações como São Francisco de Assis, Santo Agostinho, Calvino dentre outros. Em todos os casos há um traço de Cristo que é evidente – a necessidade de colocar Deus em primeiro lugar e a necessidade dos outros como prioridade em detrimento da sua própria.

Retomando um pouco a história no século passado, temos que os evangélicos eram chamados de crentes. Nessa época, ser crente significava buscar a Deus com fervor, cultos ao ar livre, vigílias, orações em voz alta, desafios ao pecado e uma vida extremamente regrada. Sempre com roupas discretas – ternos, camisas, saias compridas – buscavam-se diferenciar dos outros pela imagem sisuda e pelo isolamento. Apesar dos avivamentos e grandes milagres acontecidos em todo esse tempo, o conceito de crente sobrepujou o de cristão e, eventualmente, com suas exceções, as igrejas estavam cheias de gente bem vestida mas sem conteúdo. Com um exterior arrumado, mas podres e vazias por dentro.

Então começou a tomar força o movimento dos evangélicos – os crentes que tinham se “libertado” da opressão religiosa e adoravam a Deus de forma livre e extravagante. Invadindo a sociedade exclamando “Jesus te ama”, logo tornou-se uma tendência a ser adotada por muitos. Busca por bençãos, pela prosperidade. Uma vida de liberdade (ou libertinagem), corroborada pela graça divina. Uma religião que promete uma vida cheia de apenas alegrias, bençãos e grandes acontecimentos. As igrejas se tornaram clubes sociais, cheios de pessoas que apenas faziam aparições para marcar presença. Logo os políticos também viram essas aparições como estratégicas para ganhar eleitorado. Há um imenso mercado de produtos gospel, pulseirinhas, camisetas, bíblias multicoloridas. Enquanto os crentes queriam exibir claramente que não faziam parte do mundo, os evangélicos queriam na verdade se misturar. Assim abriram as portas das igrejas (também com suas exceções) para que qualquer coisa fosse aceita, abriram as portas para a frieza espiritual, a negligência, a falta de compromisso e o “oba-oba”.

Acredito não haver problemas em participar de eventos, usar camisetas ou ter bíblias em formatos diferentes – isso não quer dizer nada. O problema mesmo é quando as pessoas começam a acreditar que apenas por participar de eventos, fazer parte de um grupo da igreja ou usar uma pulseirinha “Jesus te ama” é o bastante para ficarem em paz consigo mesmo em relação a Deus. Assim como antes se usavam roupas bonitas para se diferenciar do resto do mundo, hoje se usa roupas parecidas para se misturarem ao todo. Mas do mesmo modo, é uma transformação superficial, apenas de aparência.

Os “crentes” (ênfase nas aspas) esquecem da Bíblia quando Deus dizia que queria salvar a todos (Salmo 76:9), que amou o mundo (João 3:16), que olhava para o coração e não para a aparência (I Samuel 16:7), que não devemos julgar (Mateus 7:1), que o amor cobre a multidão de pecados (Provérbios 10:12). Os “evangélicos” (ênfase nas aspas) esquecem da Bíblia quando Jesus diz que temos que carregar a nossa cruz (Marcos 8:34), que no mundo teremos aflições (João 16:33), que devemos considerar o próximo como nosso superior (Filipenses 2:3), que temos que buscar a Deus em primeiro lugar (Mateus 6:33) e não as coisas que queremos. Que para vivermos com Cristo, temos que morrer com Ele (II Timóteo 2:11) e que a transformação verdadeira deve primeiro acontecer no interior antes do exterior (Mateus 23:26). Se essa for realmente a postura a ser sempre adotada, não quero ser “crente” e não quero ser “evangélico”. O que quero mesmo é ser cristão, porque sei que é o único jeito de realmente me aproximar de Deus – e Ele sabe como nós precisamos disso, mesmo que não reconheçamos ou percebamos.

Ser cristão não é algo que decidimos em um dia quando nos emocionamos com uma pregação e dizemos querer aceitar Jesus ou quando somos batizados na religião de nossos pais – então irmos ao culto ou missa uma vez por semana para “bater cartão”. Ser cristão é uma escolha diária de trilhar o caminho que Deus tem para nós. De negar tudo aquilo (inclusive a nós mesmos) que pode nos impedir de seguir e obedecer a Ele, sejam coisas ruins ou coisas muito boas. Todo dia temos que buscá-Lo, todo dia temos que conhecê-Lo.

Ser cristão é buscar um relacionamento verdadeiro com Deus – não apenas um de “senhor-servo” como dito em algumas igrejas católicas e algumas igrejas evangélicas tradicionais, muito menos um de “pai-filho mimado” em que tudo que pedimos vem de graça se não “faço bico”, como em algumas igrejas evangélicas. Ter um relacionamento verdadeiro de conhecer (Oséias 6:3), depender e confiar – buscar a Deus por quem Ele é e não pensando no que Ele pode fazer por nós.

Há também muitas outras características para ser cristão, mas acho que se tivermos a seguinte frase em mente, tudo se esclarece: ‘Cristianismo não é religião, é escolha e filosofia/estilo de vida.’ A escolha e a caminhada diária persiste, até o momento em que, quando as pessoas olharem para nós, não vejam mais a nós mesmos mas sim a Jesus.

——

Não digo isto como uma crítica direcionada a terceiros, mas uma palavra de alerta que primeiro ministra sobre a minha própria vida. Eu, antes de qualquer outro, sou o que mais precisa de Deus e de que Ele aja em minha vida para me formar como um verdadeiro cristão. A minha oração é que esse texto não gere ofensas ou dúvidas – porque não é o meu intuito de forma alguma. Mas que possa nos fazer perceber que enquanto nos fiarmos em denominação ou placas de igreja a tal ponto que nos faça criar atritos entre nós mesmos, estamos cada vez mais longe de chegarmos à perfeição perante Deus (Mateus 5:48).

God´s Chisel (O formão de Deus)


Leave a Comment so far
Leave a comment



Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s



%d bloggers like this: